terça-feira, 30 de março de 2010

To de volta

Depois de alguns longos dias estou de volta. Pretendo usar este blog com mais frequencia e desta vez vou postar dois textos, um de minha própria safra e outro de autor que eu não conheço mas que achei interessante. Chegou até minha caixa de email em espanhol, traduzi com os meus parcos conhecimento da lingua de Cervantes. Oficinas de masturbação para reduzir gravidez precoce?
Faz algum tempo houve um pequeno alvoroço midiático na Espanha ao descobrir-se que a Junta de Governo de Extremadura, nas mãos dos socialistas, havia organizado, em seu plano de educação sexual dos estudantes, umas oficinas de masturbação para meninos e meninas a partir dos 14 anos, campanha à qual batizou, não sem picardia, “O prazer está em suas mãos”.
Ante os protestos de alguns contribuintes de que se invista deste modo os impostos, os porta-vozes da junta alegaram que a educação sexual dos meninos era indispensável para “prevenir gravidez não desejada” e, portanto as aulas de masturbação serviam para “evitar males maiores”. Na polemica que o assunto provocou, a Junta de Extremadura recebeu as felicitações e o apoio da Junta de Andaluzia, cuja conselheira de Igualdade e Bem-Estar, Micaela Navarro, anunciou que aquela iniciativa era importante e que na Andaluzia começará em breve o lançamento de uma campanha similar a extremenha. De outro lado, uma tentativa de acabar com os exercícios de masturbação mediante uma ação judicial impetrada por uma organização ligada ao Partido Popular e batizada – com não menos faíscas — Mãos Limpas, fracassou estrondosamente, pois a Fiscal do Tribunal de Justiça de Extremadura não deu seguimento à denúncia e a arquivou.
Masturbem-se, pois, meninos e meninas do mundo! Quanta água correu neste velhíssimo planeta que há tanto nos suporta, os humanos, desde que, em minha infância, os padres salezianos e os irmãos de La Salle – dois colégios onde estudei o primário – nos assustavam com o espantalho de que “maus apalpamentos” produziam a cegueira, a tuberculose e imbecilidade. Agora, seis décadas depois, aulas de punheta nas escolas!
Isso se chama progresso. Não é verdade?
A curiosidade, não a maledicência, me criva o cérebro de perguntas. Darão notas? Farão provas? As oficinas serão só teóricas ou também práticas? Que proezas terão que realizar o aluno e a aluna para tirar nota máxima e que fiascos para serem reprovados? Dependerá da quantidade de conhecimentos que sua memória retenha ou da velocidade, quantidade e consistência dos orgasmos que produza a destreza tátil dos meninos e meninas? Não é graça. Se se tem a audácia de abrir oficinas para orientar a inocência nas e técnicas da masturbação, todas as perguntas são perfeitamente pertinentes.
Direi desde já que não tenho a menor censura moral que opor à iniciativa “O Prazer Está em Tuas Mãos” da Junta de Extremadura. Reconheço as boas intenções que a animam e admito, inclusive, que mediante campanha deste tipo não é impossível que diminuam os casos de gravidez não desejada. Minha crítica é de cunho sensual e sexual. Temo que em vez de livrar os meninos e as meninas de superstições, mentiras e preconceitos que tradicionalmente tem rodeado o sexo, iniciativas como a das oficinas de masturbação o torne tão trivial que acabem por converte-lo em um exercício sem mistério, dissociodo do sentimento e da paixão, privando deste modo as futuras gerações de uma fonte de prazer que tem regado até hoje de maneira fecunda a imaginação e a criatividade dos seres humanos.
A masturbação não necessita ser ensinada, ela se descobre na intimidade e é uma das tarefas humanas que pertence à vida privada e vai separando ao menino e à menina, de seu entorno familiar, individualizando-os e sensibilizando-lo para o mundo secreto dos desejos, e instruindo-os sobre assuntos capitais como o sagrado, o mito, o tabu, o corpo e o prazer. Por isso, destruir os ritos privados e acabar com a discrição e o pudor que acompanha o sexo não é combater um preconceito e sim tirar da vida sexual aquela dimensão que foi surgindo em torno dela à medida que a cultura e o desenvolvimento das artes e das letras iam enriquecendo-a e convertendo a ela mesma em obra de arte. Tirar o sexo das alcovas para exibi-lo em praça pública é, paradoxalmente, não libera-lo, e sim regredir aos tempos da caverna, quando os casais não haviam aprendido a fazer o amor, apenas a cupular e ajuntar-se, como os macacos e os cachorros. A suposta liberação do sexo, uma das marcas mais cantadas da modernidade na sociedades ocidentais, dentro da qual se inscreve essa idéia de aulas de masturbação nas escolas, quiçá consiga abolir certas idéias falsas e estúpidas sobre o onanismo. Em boa hora. Mas também contribuirá para acertas outra punhalada no erotismo e, quem sabe, a aboli-lo. Quem por fim sai ganhando? Nem os libertários nem os libertinos e sim os puritanos e as igrejas. E continuará o empobrecimento e a banalização do amor que caracteriza nossa época.
A idéia das oficinas de masturbação é um novo elo no movimento que, para por uma data de nascimento, começou em Paris, em maio de 1958, e pretende por fim a todos os obstáculos e prevenções de caráter religioso e ideológico que, desde tempos inveterados, têm reprimido a vida sexual provocando inumeráveis sofrimento, sobretudo às mulheres e às minorias sexuais, tais como frustração, neuroses e desequilíbrios psíquicos de toda ordem em quem, devido à rigides da moral reinante, se vêem discriminados, censurados e condenados a uma insegura clandestinidade.
Este movimento tem trazido conseqüências muito saudáveis, desde o início, nos países ocidentais, embora em outras culturas tem exarcebado as proibições e repressões. O mito e culto da virgindade que pesavam como uma lápide sobre a mulher vão se evaporando por sorte e graças a isso e à generalização do uso da pílula as mulheres gozam hoje, se não da mesma liberdade que os homens, ao menos de uma margem de liberdade sexual infinitamente mais amplo que suas avós e bisavós e que suas congêneres dos países mulçumanos e do terceiro mundo. Por outro lado, embora sem desaparecer de tudo, vão se reduzindo preconceitos e anátemas e as disposições legais que até poucos anos puniam a homossexualidade e a consideravam uma “prática perversa”. Pouco a pouco vai se admitindo nos países ocidentais o matrimonio entre pessoas do mesmo sexo com os mesmos direitos que os dos casais heterossexuais, incluindo o de adotar crianças. E também, de modo paulatino, vai se estendendo a idéia de que, em matéria sexual, o que façam ou deixem de fazer entre eles, os adultos em pleno uso de sua razão e decisão, é prerrogativa sua e ninguém, começando pelo Estado, deve imiscuir-se no assunto.
Tudo isto constitui um progresso, evidentemente. Mas é um erro crer, como os promotores deste movimento libertador, que dessacralizando-o, desvestindo-o dos segredos e rituais que o acompanham há séculos, desaparecendo de sua prática toda forma de transgressão, o sexo passará a ser uma sã e normal na cidade.
O sexo só é são e normal entre os animais e as plantas. O foi entre nós, os bípedes, quando ainda não éramos humanos completos, isto é, quando o sexo era para nós desafogo do instinto e pouco mais que isso, uma descarga física de energia que garantia a reprodução. A desanimalização da espécie foi um longo e complicado processo e nele teve um papes decisivo a lenta aparição do indivíduo soberano, sua emancipação da tribo, com tendências, disposições, desígnios, anseios, desejos que o diferenciavam dos demais e o constituíam como um ser único e intransferível. O sexo desempenhou um papel protagonista na criação do indivíduo soberano e, como mostrou com mais lucidez do que ninguém o gênio de Freud, nesse domínio, o mais íntimo e privado as soberania individual, é onde se forjam os traços distintivos de cada personalidade, o que nos pertence como próprio e nos faz diferentes dos outros. Esse é um domínio privado e secreto e deveria seguir sendo-o se não queremos secar uma das fontes mais intensas do prazer e da criatividade, isto é, da civilização.
George Bataille não se enganava quando alertou contra os riscos de uma permissividade desenfreada em matéria sexual. A desaparição dos preconceitos não pode significar a abolição dos rituais, o mistério, as formas e a discrição graças aos quais o sexo se civilizou e humanizou. Com sexo público, são e normal a vida poderia tornar-se infinitamente mais aborrecida, medíocre e violenta do que é.