sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Mudando o rumo para reativar

Este blog foi criado há algum tempo e tinha como objetivo debater política em geral. Agora que estou de volta à sala de aula gostaria de transformá-lo em uma ferramenta para prolongamento de minhas aulas de sociologia. Assim, todos os meus alunos estão convidados a participar deste espaço. Quem sabe, a gente aprende juntos, os alunos a usarem a internet como ferramenta de aprendizagem e eu a ser o melhor professor que puder. Meninos e meninas, alunos do Ensino Médio no Polivalente Aquidabã, sintam-se à vontade neste espaço virtual.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Sobre repressão ao estudantes em Vitória

Peraltices desmascararam o governo
Antonio Fernando de Souza
Os episódios envolvendo estudantes e a policia militar do Espírito Santo, na semana passada e, há alguns dias, a mesma polícia, por meio de seu Batalhão de Missões Especiais, e trabalhadores sem teto no município de Aracruz, devem acender um alerta para todos os democratas desse estado. Afinal, tratamento policial para as questões sociais num governo que iniciou anunciando que prezará pelo diálogo, não é uma contradição desprezível. Ainda mais quando esse mesmo governo está em franco processo de discussão pública sobre a elaboração do Plano Plurianual de Aplicações, o PPA.
Trata-se de um governo que se diz democrático e socialista, encabeçado por um governador do PSB, que iniciou sua militância no movimento estudantil e se orgulha disso, ou pelo menos diz se orgulhar. Esse mesmo governador tem como vice um quadro do Partido dos Trabalhadores que em todas as suas campanhas faz referência ao seu passado de militância nas Comunidades Eclesiais de Base, as famosas CEBs da Igreja Católica, fortemente influenciadas pela Teologia da Libertação que, por sua vez, prega sua “opção preferencial pelos pobres”.
A ação do BME (Bate, Mata e Espanca, segundo uma das faixas vistas na manifestação da última sexta-feira), maculou não só a imagem do governo em seu primeiro semestre, como também atingiu a imagem da própria PM que vem fazendo um grande esforço para melhorar sua relação com a população em geral, seja na tentativa de retomar o projeto de polícia interativa, seja na sua busca de integração com os outros órgãos governamentais nos chamados Territórios da Paz. Como explicar essa aparente contradição?
Se olharmos com atenção as forças políticas que compõem este governo, talvez encontremos uma explicação. Se é verdade que o PT e o PSB, com o seu passado de democracia e de relação com os movimentos sociais encabeçam esse governo, também é verdade que as forças da reação também estão fartamente representadas em seu interior. Pessoas, grupos empresariais e partidos ligados aos velhos grupos reacionários que construíram o estado na mais verdadeira e violenta truculência contra os mais pobres ocupam cargos importantes neste governo.
A turma que historicamente dominou esse estado, colocando-o a serviço de seus interesses contra os das massas populares, ao que parece, prevaleceu nestes dois episódios e impôs seu velho método truculento e violento ante as organizações e manifestações do povo, levando o governo a uma série de erros que acabaram resultando numa grande derrota política e numa enorme sensação de desilusão naqueles que, como eu, votaram no atual governador na esperança de ver os interesses da maioria prevalecerem sobre os do pequeno grupo que há década comanda esse estado e impõe a todos, pela força e pela violência, um silêncio sepulcral.
Resultado: o candidato que derrotou as forças do atraso impondo sua candidatura e sua vitória eleitoral, tornando-se o governador dos progressistas do Espírito Santo, sofreu uma grave derrota política ao atacar violentamente estas forças, apenas por fazer questão demonstrar força sobre algumas dezenas de jovens que confundiram organização política e manifestação pública com peraltices da adolescência. Lamentável!

Falando de rebeldi

Só a rebeldia muda o mundo
Antonio Fernando de Souza

Quem tem como única ou principal fonte de informação os chamados jornalões ou, como é o caso da maioria do nosso povo, a televisão, deve ter dificuldades de entender fenômenos sociais noticiados repentinamente sem que se soubessem antes da existência dos chamados fatos geradores, como foi o caso recente das revoltas populares no Norte da África. Parece que tudo começou de repente como num passe de mágica. O pior são os tais “especialistas” chamados a comentar os fatos. Às vezes da vontade de rir da cara-de-pau deles.
Agora mesmo estão ocorrendo grandes e significativas manifestações de massa na Grécia (oito greves gerais nos últimos 12 meses), Portugal (a maior greve desde a revolução dos cravos), greve geral na Espanha onde ocorreu recentemente uma manifestação gigante contra o governo da qual quase nada se soube pela velha mídia. Nos Estados Unidos, a partir do estado de Winsconsin, os trabalhadores têm protagonizado manifestações que chamam a atenção do mundo pelo tamanho e pela radicalidade. Mas para os grandes meios de comunicação desse imenso país, nada disso merece ser notícia.
Por que essa cegueira? Difícil saber. Uma das possíveis respostas seria o colonialismo subserviente de nossas agências noticiosas, que parecem evitar notícias desagradáveis ao grande capital. Pode ser também que nossos editores não considerem mesmo digno de notícia uma manifestação de trabalhadores (centenas de milhares) nas capitais européias e na terra do Tio Sam.
Mas também pode ser por que eles (os editores) não queiram deixar que a massa perceba que as manifestações de rua mais ou menos radicalizadas são normais em qualquer democracia, assim fica mais fácil chamar as nossas manifestações de baderna, ou coisa pior, como costumam fazer. Afinal os nossos “democratas” detestam povo organizado e se manifestando. Eles sabem que um povo que aprende com o outro a lutar para mudar sua realidade representa um grande perigo para seus privilégios.
Enfim, são muitas as possíveis razão, mas uma coisa é certa: o que eles não querem e ver e ouvir os seus “especialistas” de aluguel terem de reconhecer ao vivo e a cores que as grandes mazelas sofridas pelo nosso povo decorrem das relações internacionais cujo objetivo maior é penalizar os mais pobres em detrimento dos mais ricos e são comandadas pelos tais organismos internacionais hoje em benefício de um sistema financeiro internacional falido que sobrevive como parasitas do dinheiro que deveria estar indo para os serviços públicos.
Essa é, a meu ver, o principal motivo pelo qual os meios que tanto falam em conteúdos e credibilidades, arriscarem tanto negligenciando fatos de grande importância na esperança que eles se resolvam sem que eles sejam obrigados a noticiar.
Mas independente da vontade dos donos da mídia os fatos estão se dando e os povos de todos os continentes estão nas ruas em luta dura e sem tréguas contra o sistema que cobra dos pobres os prejuízos causados pela ganância de banqueiros e seus executivos inescrupulosos que, mancomunados com os tais organismos multilaterais, chantageiam governos em todos os países com o objetivo de garantir seus polpudos lucros à custa dos mais pobres.
Só não sei até quando eles vão continuar fazendo isso, os povos estão se juntando e, ao contrário do que desejavam as elites de todo o mundo, sua principal ferramenta de mobilização tem sido até aqui a internet, que parecia estar levando a todos e principalmente os mais jovens para uma vida isolada em que os contatos sociais seriam intermediados pelo frio computador.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Aprender é sempre bom

Aprendendo com os outros.
Antonio Fernando de Souza
Adquiri e recomendo a excelente revista, “Dossiê 05. Le monde diplomatique Brasil”, dedicada à África, nela chamou-me a atenção o texto intitulado “Um continente abandonado – Decadência dramática dos Estados africanos”, em que o sociólogo Jean-Pierre Olivier de Sardan lista algumas características comuns da política no continente africano. Resolvi pinçar alguns trechos do artigo e propor ao possível leitor destas mal traçadas uma reflexão sobre nós, visto que olhamos nossos irmãos africanos com alguma pretensão de superioridade. Vamos aos trechos:
“O pluripartidarismo não gerou – que pena – nos responsáveis que estão no poder, em primeiro lugar, nem nas oposições (...), a aceitação mínima das regras compartilhadas do jogo. A estratégia do braço de ferro é a regra. (...) Podemos dizer que existem hoje vários partidos que se comportam como um partido único. Não há código algum, mesmo tácito e reduzido ao essencial, de boa conduta política”.
“Todos os golpes parecem ser permitidos. Virar a casaca, fazer intrigas e passar a perna são atitudes corriqueiras. (...) Não é, como acreditam os crédulos idealistas, de falta de experiência política que sofre a África, mas sim dos excessos de estratégias políticas. O conflito permanente das ambições se dá à custa das idéias”.
“A imprensa é um bom indicador dessa penúria. A liberdade de imprensa não gerou, com raras exceções, uma imprensa de investigação nem de opinião e reflexão. É uma imprensa de boatos, de denuncia e difamação. (...) Tudo isso não deixa espaço para um verdadeiro debate sobre a gestão dos negócios públicos”.
O leitor pode até não concordar com isso, mas muita semelhança desse tipo de política com a nossa pratica provinciana. Se não é assim de fato, é desse modo que a grande maioria das pessoas percebem a política entre nós. E aí é que está o perigo.
Uma sociedade só se mantém quando a maioria de seus membros concorda minimamente com as regras estabelecidas e sentem confiança nas instituições o suficiente para tentarem mudar pela via institucional aquelas com as quais discordam. Sem isso corre risco a própria sociedade e nela os indivíduos mais fragilizados, pois quando não há regras claras, prevalece a lei da selva, onde “quem pode mais chora menos” e quem pode menos buscará formas e jeitinhos para adquirir mais poder.
É sob essa ótica que se deve pensar quase todos os graves problemas que vivemos, seja no âmbito local ou no nacional. Partindo do local para o nacional exemplifico: todos reclamam dos terríveis problemas que a cidade tem em relação ao trânsito. No entanto, a imensa maioria pensa soluções a partir de seu interesse. O dono do carro particular pensa o trânsito a partir de sua condição pessoal e por isso se sente no direito de estacionar em local proibido “por alguns minutinhos, afinal os outros fazem isso!”.
No âmbito mais amplo, cito a reforma política: todos concordam que as coligações proporcionais distorcem a vontade do eleitor e fortalecem o personalismo em detrimento dos partidos e das idéias. Porém, os partidos que não se sentem preparados para disputarem sozinhos as eleições proporcionais, querem a manutenção desse tipo de coligação, sob a alegação de que seu fim irá acabar “com os partidos pequenos”. Ora, há outros mecanismos que podem garantir a existência dos partidos pequenos, o que não se pode admitir é a existência de “partidos nanicos” que tanto mal fazem à nossa democracia.
Os exemplos são muitos e fazem parte de nossa sociabilidade precária, mas é mais que necessário (e urgente) que cada um de nós, individualmente e como membros de organizações coletivas passemos a pensar a coletividade como parte de nós mesmos. Necessitamos de uma nova cultura de sociabilidade, onde o conceito de cidadania se amplie e se aproxime da noção de civilidade. Sem isso, o nosso chamado tecido social continuará seu processo de deterioração, tornando cada vez mais difícil a sua reconstituição.

Valorizar a vida

Valorizar a vida, esse é o debate.
Antonio Fernando de Souza
Há algum tempo li um texto do grande escritor Luiz Fernando Veríssimo em que ele brincava com as contradições da vida e exemplificava citando os posicionamentos da esquerda e da direita a cerca de temas como a pena de morte e o aborto. Segundo o texto, a direita que é contra a intervenção do Estado na vida das pessoas, defende a pena de morte, a mais radical intervenção estatal na vida das pessoas. Já a esquerda, para quem o coletivo deve estar acima das individualidades, costuma apelar para argumentos que levam em conta mais as liberdades individuais quando defendem a descriminalização do aborto.
Esse texto sempre me vem à mente quando as posições de esquerda e direita se expõem em temas como o desarmamento da população civil. Nesse assunto, tais contradições afloram quase que em erupções vulcânicas. Posicionam-se contra o desarmamento, pela direita, os que defendem o direito individual de usar armas e bradam aos sete cantos que “o governo tem que desarmar os bandidos e vigiar as fronteiras, e não cassar o direito individual de escolher ter ou não uma arma”.
Para estes, o fato de que cerca da metade das armas hoje em mãos de criminosos, foram um dia armas dos chamados cidadãos de bem, compradas legalmente e registradas no órgão de controle, pouco importa. Sobre as fronteiras, fingem desconhecer que pouco se contrabandeia armas que podem ser legalmente compradas no país. Há contrabando de armas sim e todos devemos exigir do Estado políticas mais efetivas de repressão a esse crime, mas as armas que estão matando nossos jovens não passaram por esse caminho, ao menos a sua maioria. Afinal, ninguém sai na rua com uma fuzil, por exemplo, para cometer assaltos. Esse tipo de arma é usado na maioria das vezes como demonstração de força das facções do crime organizado, ou em suas ações mais ousadas. As armas que estão matando nossos jovens não são desse tipo, são revólveres, armas fáceis de ser escondidas e transportadas.
Mais a mais, quando o governo faz uma campanha pela entrega voluntária de armas, não está ferindo o direito de ninguém comprar armas. Pessoalmente, acho que deveria haver maiores restrições a esse direito, ou seja, sou partidário de mais rigor e controle à venda de armas, pois acredito que o direito de ter uma arma deve ser restrito àgueles que de fato sabem e necessitam usá-la e provem estar isso. A alegação do direito de ter uma arma é falaciosa. Senão, vejamos: teoricamente todo cidadão tem o direito de dirigir um automóvel. Mas para exercer esse direito, é necessário provar junto à autoridade estatal de que, ao exerce-lo, não estará colocando em risco nem a si e nem aos outros. Ora, se para o direito de dirigir há exigências e alguns até defendem mais rigor nessas exigências, por que, para adquirir uma arma, cuja função é ferir ou matar, não deve haver controle ainda mais rígido?
Na semana passada, o Professor Roberto Garcia Simões publicou um artigo num jornal do estado, intitulado “Cemitério de Jovens”, cujo primeiro parágrafo transcrevo a seguir:
São 9.081 cruzes de Joões, Marthas, Silvas que tombaram no ES, entre 1998 e 2008, no desabrochar de suas vidas - 15 a 24 anos: homicídios (6.979) e acidentes de trânsito (2.102). Este cemitério de jovens sepulta o Estado nas primeiras posições do "Mapa da Violência 2011" (Ministério da Justiça e Instituto Sangari). Que desenvolvimento é esse? É desolador constatar a vitória das mortes sobre vidas tão novas.
Este é um fato real, estamos matando nossos jovens e, com eles o futuro de nosso estado. Desarmar a população é sim uma das ações que podem ajudar mudar essa realidade assustadora, não há espaço para falsos debates sobre liberdades individuais e outras quimeras ideológicas, pois não há e não pode haver direito mais importante do que o direito à vida e ao futuro.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Cemitério de jovens

O texto abaixo é do professor Roberto Garcia Simões, publicado num jornal aqui do ES. Muito interessante. É hora de todos se preocuparem com esse grave problema.
Cemitério de jovens
Roberto Garcia Simões
09/05/2011 - 22h27 - Atualizado em 09/05/2011 - 22h27
A Gazeta
São 9.081 cruzes de Joões, Marthas, Silvas que tombaram no ES, entre 1998 e 2008, no desabrochar de suas vidas - 15 a 24 anos: homicídios (6.979) e acidentes de trânsito (2.102). Este cemitério de jovens sepulta o Estado nas primeiras posições do "Mapa da Violência 2011" (Ministério da Justiça e Instituto Sangari). Que desenvolvimento é esse? É desolador constatar a vitória das mortes sobre vidas tão novas.

Como pai, compartilho a solidariedade fraterna com as famílias que sofrem a dor de enterrarem filhos na flor da idade. Como cidadão, reafirmo a indignação com o desequilíbrio entre a potência e a velocidade das mortes pelas drogas e trânsito e a tibieza associada ao atraso das ações para vivificar a juventude: educação e cultura, esporte, justiça, inclusão digital, segurança. E, como professor, busco superar a banalização dos números decorrente da repetição silenciosa, acomodada, desse genocídio estadual de jovens de 15 a 24 anos. No obituário juvenil, é intolerável a posição do ES, pois assassina o "futuro" tão usado nos discursos.

a) É o único Estado onde a principal causa de óbitos juvenis em 2008, nas idades separadas entre 15 e 24 anos, foi homicídios; em AL, essa situação bárbara não aconteceu na idade de 15 anos. Isso não se verificou em nenhum outro Estado do Sudeste para as 10 idades consideradas. Drogas e tiros aterrorizam ainda mais juventude no ES.

b) A segunda maior taxa estadual de homicídios juvenil - 120 mortes a cada 100 mil jovens - ocorreu no ES, posicionado entre as de AL (125,3) e PE (106,1). A de SC, que dobrou entre 1998 e 2008, é quase cinco vezes menor (25,4). Já a do ES continuou elevada desde 1998 - e superou a de El Salvador, a maior do mundo: 105,6. Covas e caixões enterram também políticas vigentes para a juventude.

c) Na Grande Vitória há mais do que uma guerra civil de "gangues" de proporções cadavéricas. Em 2008, esta região metropolitana teve a maior taxa de homicídios de jovens em comparação com as nove maiores do Brasil: 188,4 por 100 mil jovens. A taxa da região metropolitana de São Paulo, no mesmo ano e faixa etária, é seis vezes menor. É a selvageria urbana reinando na Grande Vitória.

d) Em mais um féretro massacrante, a encantadora Vitória natural ficou, em 2008, entre as capitais, com a terceira maior taxa de homicídios de jovens: 181,9; acima estavam Maceió e Recife. Para que se possa ter uma ideia desse assombro, a Organização Mundial de Saúde considera que o crime se torna uma "epidemia" quando ultrapassa a marca de "10 casos por 100 mil indivíduos". A maior epidemia da Grande Vitória, e do Brasil, continua sem ser tratada enquanto tal, sem "remédios" compatíveis.

O velório prossegue nos acidentes de trânsito. Nessa corrida mortal, eis as colocações na respectiva taxa por 100 mil habitantes, em 2008: a) ES, quinto lugar; Grande Vitória, segundo lugar entre nove regiões metropolitanas, e Vitória, a capital, em primeiro lugar. A impunidade continua vida nas ruas.

Passivamente, há uma década (1998-2008) a sociedade no ES assiste a 21 enterros semanais de jovens mortos por drogas-tiros e no trânsito. Triste, penso se essa mesma sociedade é capaz de gerar significados e espaços que propiciem a vida jovem.

Roberto Garcia Simões é professor da Ufes e especiaIista em políticas públicas.
E-mail: robertog@npd.ufes.br

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Detesto baixarias

Sobre política, cultura e música
Antonio Fernando de Souza
No mesmo dia e momento em que li belo texto do Ilauro, falando de sua paixão pela música do grande Elomar Figueira, soube da corajosa atitude do secretário de estado de cultura da Paraíba, o cantor Chico Cesar, de não pagar cachê para o que ele chamou de “forró plastificado”. Parece que o secretário se posicionou contra o “forró plastificado” a partir de uma vaia dos paraibanos ao grande Sivuca em show patrocinado pelo governo paraibano, quando o público impediu sua apresentação, gritando: “Zezé, cadê você? Eu vim aqui só prá te ver!”. Numa referência ao goiano Zezé de Camargo, atração principal da noite.
Em nota o secretário de cultura disse que “não faz sentido que, na terra do forró, o estado pague a bandas de forró ‘sem ao menos uma sanfona’ a destruição das verdadeiras bandas de forró que existem em todo o nordeste e principalmente na Paraíba. Segundo ele, “pseudo bandas de forró, compostas por um teclado eletrônico, um gritador de palavras de ordem alienantes e duas dançarinas, até podem fazer apresentações onde quiserem, mas nunca pagas pelo estado onde há tantas boas e autênticas bandas de forró, como é o caso da Paraíba”.
Sempre admirei o artista Chico Cesar, embora não seja um grande fã de suas músicas. Mas, tenho que reconhecer que é um Secretário de Cultura corajoso. Creio que ele sabe as conseqüências de sua decisão: provavelmente será exonerado em curto espaço de tempo por pressões das rádios “defensoras” da liberdade de expressão, das grandes gravadoras e de todos os que estão por trás da velha indústria do “jabá”, não só da Paraíba, mas de todo esse Brasil onde toda manifestação cultural que não esteja sob controle da indústria do entretenimento está fadada ao gueto. Daqui de Cachoeiro de Itapemirim quero enviar minha solidariedade ao ousado secretário.
Lembro que nas festas de São Pedro de 2009, em Cachoeiro, aconteceram, no mesmo espaço e no mesmo dia, um show do excelente grupo ‘O Teatro Mágico’, seguido de uma dessas bandas ‘plastificadas’. O primeiro show foi um espetáculo inenarrável de alegria e arte circense/musical. Eu estive lá e vi como a (boa) emoção estava quase palpável. Encerrado o espetáculo de ‘O Teatro Mágico’, subiu ao palco uma dessas bandas de música plastificada e impostas pelo jabaculê geral. Resultado: antes de se iniciar a terceira música, já estavam voando cadeiras prá tudo o que é lado e a pancadaria corria tão solta que o show foi interrompido.
Sem querer bancar o psicólogo das massas, mas já defendendo minhas concepções, ouso defender que, diante do cerco das multinacionais do entretenimento, cabe aos poderes públicos oferecerem ao povo espetáculos de boa qualidade, sejam eles musicais, teatrais ou plásticos. A indústria do jabá já faz de tudo para embrutecer o povo. Nessa luta inglória, prefiro os que ensinam ao povo a partir do refrão “eu sinto que sei que ser um tanto bem maior”, aos que repetem o chavão gritado a plenos pulmões “SAI DO CHÃO!” e sua chulas derivações.
Isso me remete à minha última viagem à Bahia, quando questionando o tipo de música da moda em cada verão, ouvi de um estudante de artes da UFBA, apreciador dos reboliotios da vida, que rebateu com argumentos mais ou menos assim: “música é música. Isso é só baixaria que o povo gosta”. Pois é, Chico César está certo, não cabe aos governos financiarem artistas que acham que o povo precisa de baixarias. Isso o MERCADO já faz.