quarta-feira, 8 de junho de 2011

Sobre repressão ao estudantes em Vitória

Peraltices desmascararam o governo
Antonio Fernando de Souza
Os episódios envolvendo estudantes e a policia militar do Espírito Santo, na semana passada e, há alguns dias, a mesma polícia, por meio de seu Batalhão de Missões Especiais, e trabalhadores sem teto no município de Aracruz, devem acender um alerta para todos os democratas desse estado. Afinal, tratamento policial para as questões sociais num governo que iniciou anunciando que prezará pelo diálogo, não é uma contradição desprezível. Ainda mais quando esse mesmo governo está em franco processo de discussão pública sobre a elaboração do Plano Plurianual de Aplicações, o PPA.
Trata-se de um governo que se diz democrático e socialista, encabeçado por um governador do PSB, que iniciou sua militância no movimento estudantil e se orgulha disso, ou pelo menos diz se orgulhar. Esse mesmo governador tem como vice um quadro do Partido dos Trabalhadores que em todas as suas campanhas faz referência ao seu passado de militância nas Comunidades Eclesiais de Base, as famosas CEBs da Igreja Católica, fortemente influenciadas pela Teologia da Libertação que, por sua vez, prega sua “opção preferencial pelos pobres”.
A ação do BME (Bate, Mata e Espanca, segundo uma das faixas vistas na manifestação da última sexta-feira), maculou não só a imagem do governo em seu primeiro semestre, como também atingiu a imagem da própria PM que vem fazendo um grande esforço para melhorar sua relação com a população em geral, seja na tentativa de retomar o projeto de polícia interativa, seja na sua busca de integração com os outros órgãos governamentais nos chamados Territórios da Paz. Como explicar essa aparente contradição?
Se olharmos com atenção as forças políticas que compõem este governo, talvez encontremos uma explicação. Se é verdade que o PT e o PSB, com o seu passado de democracia e de relação com os movimentos sociais encabeçam esse governo, também é verdade que as forças da reação também estão fartamente representadas em seu interior. Pessoas, grupos empresariais e partidos ligados aos velhos grupos reacionários que construíram o estado na mais verdadeira e violenta truculência contra os mais pobres ocupam cargos importantes neste governo.
A turma que historicamente dominou esse estado, colocando-o a serviço de seus interesses contra os das massas populares, ao que parece, prevaleceu nestes dois episódios e impôs seu velho método truculento e violento ante as organizações e manifestações do povo, levando o governo a uma série de erros que acabaram resultando numa grande derrota política e numa enorme sensação de desilusão naqueles que, como eu, votaram no atual governador na esperança de ver os interesses da maioria prevalecerem sobre os do pequeno grupo que há década comanda esse estado e impõe a todos, pela força e pela violência, um silêncio sepulcral.
Resultado: o candidato que derrotou as forças do atraso impondo sua candidatura e sua vitória eleitoral, tornando-se o governador dos progressistas do Espírito Santo, sofreu uma grave derrota política ao atacar violentamente estas forças, apenas por fazer questão demonstrar força sobre algumas dezenas de jovens que confundiram organização política e manifestação pública com peraltices da adolescência. Lamentável!

Falando de rebeldi

Só a rebeldia muda o mundo
Antonio Fernando de Souza

Quem tem como única ou principal fonte de informação os chamados jornalões ou, como é o caso da maioria do nosso povo, a televisão, deve ter dificuldades de entender fenômenos sociais noticiados repentinamente sem que se soubessem antes da existência dos chamados fatos geradores, como foi o caso recente das revoltas populares no Norte da África. Parece que tudo começou de repente como num passe de mágica. O pior são os tais “especialistas” chamados a comentar os fatos. Às vezes da vontade de rir da cara-de-pau deles.
Agora mesmo estão ocorrendo grandes e significativas manifestações de massa na Grécia (oito greves gerais nos últimos 12 meses), Portugal (a maior greve desde a revolução dos cravos), greve geral na Espanha onde ocorreu recentemente uma manifestação gigante contra o governo da qual quase nada se soube pela velha mídia. Nos Estados Unidos, a partir do estado de Winsconsin, os trabalhadores têm protagonizado manifestações que chamam a atenção do mundo pelo tamanho e pela radicalidade. Mas para os grandes meios de comunicação desse imenso país, nada disso merece ser notícia.
Por que essa cegueira? Difícil saber. Uma das possíveis respostas seria o colonialismo subserviente de nossas agências noticiosas, que parecem evitar notícias desagradáveis ao grande capital. Pode ser também que nossos editores não considerem mesmo digno de notícia uma manifestação de trabalhadores (centenas de milhares) nas capitais européias e na terra do Tio Sam.
Mas também pode ser por que eles (os editores) não queiram deixar que a massa perceba que as manifestações de rua mais ou menos radicalizadas são normais em qualquer democracia, assim fica mais fácil chamar as nossas manifestações de baderna, ou coisa pior, como costumam fazer. Afinal os nossos “democratas” detestam povo organizado e se manifestando. Eles sabem que um povo que aprende com o outro a lutar para mudar sua realidade representa um grande perigo para seus privilégios.
Enfim, são muitas as possíveis razão, mas uma coisa é certa: o que eles não querem e ver e ouvir os seus “especialistas” de aluguel terem de reconhecer ao vivo e a cores que as grandes mazelas sofridas pelo nosso povo decorrem das relações internacionais cujo objetivo maior é penalizar os mais pobres em detrimento dos mais ricos e são comandadas pelos tais organismos internacionais hoje em benefício de um sistema financeiro internacional falido que sobrevive como parasitas do dinheiro que deveria estar indo para os serviços públicos.
Essa é, a meu ver, o principal motivo pelo qual os meios que tanto falam em conteúdos e credibilidades, arriscarem tanto negligenciando fatos de grande importância na esperança que eles se resolvam sem que eles sejam obrigados a noticiar.
Mas independente da vontade dos donos da mídia os fatos estão se dando e os povos de todos os continentes estão nas ruas em luta dura e sem tréguas contra o sistema que cobra dos pobres os prejuízos causados pela ganância de banqueiros e seus executivos inescrupulosos que, mancomunados com os tais organismos multilaterais, chantageiam governos em todos os países com o objetivo de garantir seus polpudos lucros à custa dos mais pobres.
Só não sei até quando eles vão continuar fazendo isso, os povos estão se juntando e, ao contrário do que desejavam as elites de todo o mundo, sua principal ferramenta de mobilização tem sido até aqui a internet, que parecia estar levando a todos e principalmente os mais jovens para uma vida isolada em que os contatos sociais seriam intermediados pelo frio computador.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Aprender é sempre bom

Aprendendo com os outros.
Antonio Fernando de Souza
Adquiri e recomendo a excelente revista, “Dossiê 05. Le monde diplomatique Brasil”, dedicada à África, nela chamou-me a atenção o texto intitulado “Um continente abandonado – Decadência dramática dos Estados africanos”, em que o sociólogo Jean-Pierre Olivier de Sardan lista algumas características comuns da política no continente africano. Resolvi pinçar alguns trechos do artigo e propor ao possível leitor destas mal traçadas uma reflexão sobre nós, visto que olhamos nossos irmãos africanos com alguma pretensão de superioridade. Vamos aos trechos:
“O pluripartidarismo não gerou – que pena – nos responsáveis que estão no poder, em primeiro lugar, nem nas oposições (...), a aceitação mínima das regras compartilhadas do jogo. A estratégia do braço de ferro é a regra. (...) Podemos dizer que existem hoje vários partidos que se comportam como um partido único. Não há código algum, mesmo tácito e reduzido ao essencial, de boa conduta política”.
“Todos os golpes parecem ser permitidos. Virar a casaca, fazer intrigas e passar a perna são atitudes corriqueiras. (...) Não é, como acreditam os crédulos idealistas, de falta de experiência política que sofre a África, mas sim dos excessos de estratégias políticas. O conflito permanente das ambições se dá à custa das idéias”.
“A imprensa é um bom indicador dessa penúria. A liberdade de imprensa não gerou, com raras exceções, uma imprensa de investigação nem de opinião e reflexão. É uma imprensa de boatos, de denuncia e difamação. (...) Tudo isso não deixa espaço para um verdadeiro debate sobre a gestão dos negócios públicos”.
O leitor pode até não concordar com isso, mas muita semelhança desse tipo de política com a nossa pratica provinciana. Se não é assim de fato, é desse modo que a grande maioria das pessoas percebem a política entre nós. E aí é que está o perigo.
Uma sociedade só se mantém quando a maioria de seus membros concorda minimamente com as regras estabelecidas e sentem confiança nas instituições o suficiente para tentarem mudar pela via institucional aquelas com as quais discordam. Sem isso corre risco a própria sociedade e nela os indivíduos mais fragilizados, pois quando não há regras claras, prevalece a lei da selva, onde “quem pode mais chora menos” e quem pode menos buscará formas e jeitinhos para adquirir mais poder.
É sob essa ótica que se deve pensar quase todos os graves problemas que vivemos, seja no âmbito local ou no nacional. Partindo do local para o nacional exemplifico: todos reclamam dos terríveis problemas que a cidade tem em relação ao trânsito. No entanto, a imensa maioria pensa soluções a partir de seu interesse. O dono do carro particular pensa o trânsito a partir de sua condição pessoal e por isso se sente no direito de estacionar em local proibido “por alguns minutinhos, afinal os outros fazem isso!”.
No âmbito mais amplo, cito a reforma política: todos concordam que as coligações proporcionais distorcem a vontade do eleitor e fortalecem o personalismo em detrimento dos partidos e das idéias. Porém, os partidos que não se sentem preparados para disputarem sozinhos as eleições proporcionais, querem a manutenção desse tipo de coligação, sob a alegação de que seu fim irá acabar “com os partidos pequenos”. Ora, há outros mecanismos que podem garantir a existência dos partidos pequenos, o que não se pode admitir é a existência de “partidos nanicos” que tanto mal fazem à nossa democracia.
Os exemplos são muitos e fazem parte de nossa sociabilidade precária, mas é mais que necessário (e urgente) que cada um de nós, individualmente e como membros de organizações coletivas passemos a pensar a coletividade como parte de nós mesmos. Necessitamos de uma nova cultura de sociabilidade, onde o conceito de cidadania se amplie e se aproxime da noção de civilidade. Sem isso, o nosso chamado tecido social continuará seu processo de deterioração, tornando cada vez mais difícil a sua reconstituição.

Valorizar a vida

Valorizar a vida, esse é o debate.
Antonio Fernando de Souza
Há algum tempo li um texto do grande escritor Luiz Fernando Veríssimo em que ele brincava com as contradições da vida e exemplificava citando os posicionamentos da esquerda e da direita a cerca de temas como a pena de morte e o aborto. Segundo o texto, a direita que é contra a intervenção do Estado na vida das pessoas, defende a pena de morte, a mais radical intervenção estatal na vida das pessoas. Já a esquerda, para quem o coletivo deve estar acima das individualidades, costuma apelar para argumentos que levam em conta mais as liberdades individuais quando defendem a descriminalização do aborto.
Esse texto sempre me vem à mente quando as posições de esquerda e direita se expõem em temas como o desarmamento da população civil. Nesse assunto, tais contradições afloram quase que em erupções vulcânicas. Posicionam-se contra o desarmamento, pela direita, os que defendem o direito individual de usar armas e bradam aos sete cantos que “o governo tem que desarmar os bandidos e vigiar as fronteiras, e não cassar o direito individual de escolher ter ou não uma arma”.
Para estes, o fato de que cerca da metade das armas hoje em mãos de criminosos, foram um dia armas dos chamados cidadãos de bem, compradas legalmente e registradas no órgão de controle, pouco importa. Sobre as fronteiras, fingem desconhecer que pouco se contrabandeia armas que podem ser legalmente compradas no país. Há contrabando de armas sim e todos devemos exigir do Estado políticas mais efetivas de repressão a esse crime, mas as armas que estão matando nossos jovens não passaram por esse caminho, ao menos a sua maioria. Afinal, ninguém sai na rua com uma fuzil, por exemplo, para cometer assaltos. Esse tipo de arma é usado na maioria das vezes como demonstração de força das facções do crime organizado, ou em suas ações mais ousadas. As armas que estão matando nossos jovens não são desse tipo, são revólveres, armas fáceis de ser escondidas e transportadas.
Mais a mais, quando o governo faz uma campanha pela entrega voluntária de armas, não está ferindo o direito de ninguém comprar armas. Pessoalmente, acho que deveria haver maiores restrições a esse direito, ou seja, sou partidário de mais rigor e controle à venda de armas, pois acredito que o direito de ter uma arma deve ser restrito àgueles que de fato sabem e necessitam usá-la e provem estar isso. A alegação do direito de ter uma arma é falaciosa. Senão, vejamos: teoricamente todo cidadão tem o direito de dirigir um automóvel. Mas para exercer esse direito, é necessário provar junto à autoridade estatal de que, ao exerce-lo, não estará colocando em risco nem a si e nem aos outros. Ora, se para o direito de dirigir há exigências e alguns até defendem mais rigor nessas exigências, por que, para adquirir uma arma, cuja função é ferir ou matar, não deve haver controle ainda mais rígido?
Na semana passada, o Professor Roberto Garcia Simões publicou um artigo num jornal do estado, intitulado “Cemitério de Jovens”, cujo primeiro parágrafo transcrevo a seguir:
São 9.081 cruzes de Joões, Marthas, Silvas que tombaram no ES, entre 1998 e 2008, no desabrochar de suas vidas - 15 a 24 anos: homicídios (6.979) e acidentes de trânsito (2.102). Este cemitério de jovens sepulta o Estado nas primeiras posições do "Mapa da Violência 2011" (Ministério da Justiça e Instituto Sangari). Que desenvolvimento é esse? É desolador constatar a vitória das mortes sobre vidas tão novas.
Este é um fato real, estamos matando nossos jovens e, com eles o futuro de nosso estado. Desarmar a população é sim uma das ações que podem ajudar mudar essa realidade assustadora, não há espaço para falsos debates sobre liberdades individuais e outras quimeras ideológicas, pois não há e não pode haver direito mais importante do que o direito à vida e ao futuro.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Cemitério de jovens

O texto abaixo é do professor Roberto Garcia Simões, publicado num jornal aqui do ES. Muito interessante. É hora de todos se preocuparem com esse grave problema.
Cemitério de jovens
Roberto Garcia Simões
09/05/2011 - 22h27 - Atualizado em 09/05/2011 - 22h27
A Gazeta
São 9.081 cruzes de Joões, Marthas, Silvas que tombaram no ES, entre 1998 e 2008, no desabrochar de suas vidas - 15 a 24 anos: homicídios (6.979) e acidentes de trânsito (2.102). Este cemitério de jovens sepulta o Estado nas primeiras posições do "Mapa da Violência 2011" (Ministério da Justiça e Instituto Sangari). Que desenvolvimento é esse? É desolador constatar a vitória das mortes sobre vidas tão novas.

Como pai, compartilho a solidariedade fraterna com as famílias que sofrem a dor de enterrarem filhos na flor da idade. Como cidadão, reafirmo a indignação com o desequilíbrio entre a potência e a velocidade das mortes pelas drogas e trânsito e a tibieza associada ao atraso das ações para vivificar a juventude: educação e cultura, esporte, justiça, inclusão digital, segurança. E, como professor, busco superar a banalização dos números decorrente da repetição silenciosa, acomodada, desse genocídio estadual de jovens de 15 a 24 anos. No obituário juvenil, é intolerável a posição do ES, pois assassina o "futuro" tão usado nos discursos.

a) É o único Estado onde a principal causa de óbitos juvenis em 2008, nas idades separadas entre 15 e 24 anos, foi homicídios; em AL, essa situação bárbara não aconteceu na idade de 15 anos. Isso não se verificou em nenhum outro Estado do Sudeste para as 10 idades consideradas. Drogas e tiros aterrorizam ainda mais juventude no ES.

b) A segunda maior taxa estadual de homicídios juvenil - 120 mortes a cada 100 mil jovens - ocorreu no ES, posicionado entre as de AL (125,3) e PE (106,1). A de SC, que dobrou entre 1998 e 2008, é quase cinco vezes menor (25,4). Já a do ES continuou elevada desde 1998 - e superou a de El Salvador, a maior do mundo: 105,6. Covas e caixões enterram também políticas vigentes para a juventude.

c) Na Grande Vitória há mais do que uma guerra civil de "gangues" de proporções cadavéricas. Em 2008, esta região metropolitana teve a maior taxa de homicídios de jovens em comparação com as nove maiores do Brasil: 188,4 por 100 mil jovens. A taxa da região metropolitana de São Paulo, no mesmo ano e faixa etária, é seis vezes menor. É a selvageria urbana reinando na Grande Vitória.

d) Em mais um féretro massacrante, a encantadora Vitória natural ficou, em 2008, entre as capitais, com a terceira maior taxa de homicídios de jovens: 181,9; acima estavam Maceió e Recife. Para que se possa ter uma ideia desse assombro, a Organização Mundial de Saúde considera que o crime se torna uma "epidemia" quando ultrapassa a marca de "10 casos por 100 mil indivíduos". A maior epidemia da Grande Vitória, e do Brasil, continua sem ser tratada enquanto tal, sem "remédios" compatíveis.

O velório prossegue nos acidentes de trânsito. Nessa corrida mortal, eis as colocações na respectiva taxa por 100 mil habitantes, em 2008: a) ES, quinto lugar; Grande Vitória, segundo lugar entre nove regiões metropolitanas, e Vitória, a capital, em primeiro lugar. A impunidade continua vida nas ruas.

Passivamente, há uma década (1998-2008) a sociedade no ES assiste a 21 enterros semanais de jovens mortos por drogas-tiros e no trânsito. Triste, penso se essa mesma sociedade é capaz de gerar significados e espaços que propiciem a vida jovem.

Roberto Garcia Simões é professor da Ufes e especiaIista em políticas públicas.
E-mail: robertog@npd.ufes.br

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Detesto baixarias

Sobre política, cultura e música
Antonio Fernando de Souza
No mesmo dia e momento em que li belo texto do Ilauro, falando de sua paixão pela música do grande Elomar Figueira, soube da corajosa atitude do secretário de estado de cultura da Paraíba, o cantor Chico Cesar, de não pagar cachê para o que ele chamou de “forró plastificado”. Parece que o secretário se posicionou contra o “forró plastificado” a partir de uma vaia dos paraibanos ao grande Sivuca em show patrocinado pelo governo paraibano, quando o público impediu sua apresentação, gritando: “Zezé, cadê você? Eu vim aqui só prá te ver!”. Numa referência ao goiano Zezé de Camargo, atração principal da noite.
Em nota o secretário de cultura disse que “não faz sentido que, na terra do forró, o estado pague a bandas de forró ‘sem ao menos uma sanfona’ a destruição das verdadeiras bandas de forró que existem em todo o nordeste e principalmente na Paraíba. Segundo ele, “pseudo bandas de forró, compostas por um teclado eletrônico, um gritador de palavras de ordem alienantes e duas dançarinas, até podem fazer apresentações onde quiserem, mas nunca pagas pelo estado onde há tantas boas e autênticas bandas de forró, como é o caso da Paraíba”.
Sempre admirei o artista Chico Cesar, embora não seja um grande fã de suas músicas. Mas, tenho que reconhecer que é um Secretário de Cultura corajoso. Creio que ele sabe as conseqüências de sua decisão: provavelmente será exonerado em curto espaço de tempo por pressões das rádios “defensoras” da liberdade de expressão, das grandes gravadoras e de todos os que estão por trás da velha indústria do “jabá”, não só da Paraíba, mas de todo esse Brasil onde toda manifestação cultural que não esteja sob controle da indústria do entretenimento está fadada ao gueto. Daqui de Cachoeiro de Itapemirim quero enviar minha solidariedade ao ousado secretário.
Lembro que nas festas de São Pedro de 2009, em Cachoeiro, aconteceram, no mesmo espaço e no mesmo dia, um show do excelente grupo ‘O Teatro Mágico’, seguido de uma dessas bandas ‘plastificadas’. O primeiro show foi um espetáculo inenarrável de alegria e arte circense/musical. Eu estive lá e vi como a (boa) emoção estava quase palpável. Encerrado o espetáculo de ‘O Teatro Mágico’, subiu ao palco uma dessas bandas de música plastificada e impostas pelo jabaculê geral. Resultado: antes de se iniciar a terceira música, já estavam voando cadeiras prá tudo o que é lado e a pancadaria corria tão solta que o show foi interrompido.
Sem querer bancar o psicólogo das massas, mas já defendendo minhas concepções, ouso defender que, diante do cerco das multinacionais do entretenimento, cabe aos poderes públicos oferecerem ao povo espetáculos de boa qualidade, sejam eles musicais, teatrais ou plásticos. A indústria do jabá já faz de tudo para embrutecer o povo. Nessa luta inglória, prefiro os que ensinam ao povo a partir do refrão “eu sinto que sei que ser um tanto bem maior”, aos que repetem o chavão gritado a plenos pulmões “SAI DO CHÃO!” e sua chulas derivações.
Isso me remete à minha última viagem à Bahia, quando questionando o tipo de música da moda em cada verão, ouvi de um estudante de artes da UFBA, apreciador dos reboliotios da vida, que rebateu com argumentos mais ou menos assim: “música é música. Isso é só baixaria que o povo gosta”. Pois é, Chico César está certo, não cabe aos governos financiarem artistas que acham que o povo precisa de baixarias. Isso o MERCADO já faz.

Dilemas do PT

Padecimentos Delubianos
por Walter Koscianski*
A epopéia de Delúbio Soares no PT é bem conhecida, estava o diretor financeiro administrando um rombo de 20 milhões de reais, resultado principalmente da campanha de 2002, aí o homem teve uma brilhante idéia, ir buscar financiamento com um o conhecido operador financeiro do finado ACM, chefão do PFL, o financista era o tal do Daniel Dantas, homem que já havia prestado os mesmos serviços de intermediação ao presidente do PSDB, Eduardo Azeredo.
Bom lembrar que Daniel Dantas foi um dos grandes vencedores e beneficiados pelo processo de privatização do patrimônio público, conduzido pelo PSDB+PFL (agora DEMO), ou seja, pessoa de estreita ligação e confiança dos setores conservadores do espectro político brasileiro.
Assim, sem conhecimento e autorização da Direção Nacional do Partido, Delúbio entabula negociação com o citado financista, e faz então um acordo pessoal e clandestino, pelas costas da Direção e de todo o PT. Lembremos também que foi um acordo de financiamento irregular sobre qualquer aspecto legal.
Delúbio arma então uma arapuca legal, não para ele, mas para um partido de milhares de filiados, com responsabilidades de administração de dezenas de prefeituras, governos estaduais, centenas de parlamentares e da Presidência da República do Brasil (5º maior país do mundo).
A brincadeira do garoto, dura dois meses, e explode na cabeça do PT, a partir de denúncia de um parlamentar também de perfil conservador, Roberto Jefferson, que estava na época contrabandeado para a base de apoio do governo.
Claro está que deu a lógica, ou alguém imaginaria que fechar um esquema clandestino com o homem de operações do PFL baiano ia dar em outra coisa? A artimanha delubiana foi tão esperta que quase derruba o Lula da presidência e extingue um partido construído em 20 anos de lutas duríssimas contra o enorme aparato conservador.
Para o Partido, o crime do Delúbio foi político, e o criminoso mata uma parte da alma do partido, que é a imagem social de seriedade e honestidade, construída com imenso esforço por militantes que dedicaram sua vida e seu trabalho á sociedade brasileira e aos mais despossuídos dentro dela.
E agora arma-se uma nova conspiração, querem trazê-lo de volta, já podemos imaginar o resultado político desta operação. Todos nós militantes já ouvimos o discurso de pessoas que tinham uma enorme confiança, expectativa e esperança com o PT, e que ficaram profundamente desiludidos com a história patrocinada pelo Delúbio em 2005, agora vamos ouvir que eles estavam certos, pois tiveram a desilusão confirmada com a volta de Delúbio para o Partido, e isto que será fortemente vinculado na grande mídia.
Correm rumores de que o homem estaria para abrir o bico, e isto estaria acuando alguns militantes, pois isto tem um nome, é chantagem, e com vai ser tratado o chantagista? Trazendo-o para dentro do partido? Seria dar confiança para quem não tem nem merece mais nenhuma confiança.
Poderíamos ter outros ganhos? Quantos militantes, ou políticos com mandatos vão agregar-se ao partido junto com Delúbio? Muitos? Nenhum? Aí está mais uma resposta a esta ação intempestiva. Mire-se o tamanho da irresponsabilidade que se arma, o PT é o partido da Presidenta Dilma, que desenvolve toda uma estratégia para construção de sua imagem social como governante, e poderá ser torpedeada por uma simples ficha de filiação, bem, não será a única presidência a sentir as agruras daquela funesta companhia.
TRIBUNA DE DEBATES
*Walter Koscianski é militante da AE-PR

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Papelão

O papel(ão) do PSDB
Antonio Fernando de Souza
O mês de abril parece estar sendo difícil para o tucanato nacional e seu partido, o PSDB. Bastou o senador e ex-governador mineiro tentar ocupar o espaço de líder das oposições para que se desencadeasse uma série de eventos que dão uma vaga idéia de como andam as coisas nas fileiras do partido. O ex-ministro Bresser Pereira foi o primeiro. Em entrevista que pouco repercutiu, anunciou sua saída do partido que ajudou fundar, dizendo que este se deixou seduzir pelo neoliberalismo e passou a representar não a social-democracia brasileira, como se propunha, mas sim a velha e a nova direitas nacionais.
Logo depois, “vazaram” um artigo do ex-presidente FHC onde este defende, entre outras coisas, que o PSDB deve buscar dialogar com os novos empresários, a antiga classe média e os novos setores em ascensão social. Causou certo furor esse artigo e gerou algum debate.
Ora, o que o ex-presidente disse é o que os observadores mais atentos já haviam notado; constatando a guinada à direita do PSDB, que começou desde muito tempo e se concluiu na última eleição presidencial, quando o candidato tucano aliou-se à velha e retrograda ultra-direita nacional.
A diferença entre a postura de Bresser Pereira e FHC é que o ex-ministro se sente incomodado ao lado da direita brasileira, enquanto o ex-presidente além de não se incomodar com os novos aliados, assume as posições desse setor e propõe ao PSDB que se torne seu representante e porta-voz institucional, liderando-o no processo político. Na visão do ex-presidente, seu partido tem que estar pronto para dialogar com a velha e a nova direita, pensando política para além das eleições. Aqui é que mora o perigo, afinal todos sabem que a direita brasileira só gosta de democracia e de eleições enquanto ela está ganhando. Deve ser isso o que mais incomodou o ex-ministro Bresser Pereira.
O problema é que o PSDB nunca foi um partido de filiados, mas sim um partido de intelectuais e de quadros eleitorais e como tal tem imensa dificuldade de se enraizar na sociedade, por isso corre sérios riscos após três derrotas consecutivas em eleições presidências. Partidos sem forte inserção social têm dificuldades de sobrevivência fora dos espaços institucionais, e isso inclui o PSDB.
Atento, FHC deve ter percebido os movimentos da presidenta Dilma em direção às classes médias e propõe que seu partido deixe de disputar o povão, onde o bloco liderado pelo PT está consolidado, disputando as chamadas classes médias. Ou seja, o que parece uma proposta política ofensiva, não é nada mais do que um apelo aos seus correligionários para uma plataforma defensiva.
De fato, o DEM, partido do senador que comemorou o escândalo do mal chamado mensalão anunciando que vamos nos livrar dessa raça por trinta anos, está se desmanchando como carga de sal sob a chuva. O movimento do PT e de parte significativa de seus dirigentes para o centro está deixando os tucanos sem alternativas e sob a ameaça de extinção. O ex-presidente está apenas propondo aos seus correligionários que substitua o finado DEM. O problema é que as disputas internas tendem a se intensificar, pois se Bresser Pereira jogou a toalha, outros tucanos de alta e baixa plumagem irão lutar para permanecer na centro-direita.
É nesse contexto que se deve pensar a coincidente blitz em frente ao apartamento do senador mineiro que foi pego aparentemente alcoolizado e com a CNH vencida nessa semana. Relembrando: primeiro Aécio usa a tribuna do senado para, num discurso de grande repercussão, apresentar as linhas gerais de ação da oposição, credenciando-se para liderá-la; depois FHC escreve seu artigo, coincidentemente intitulado “O papel da oposição” onde sugere os caminhos para seu partido; depois o senador mineiro é flagrado em uma blitz com a CNH vencida.
Pessoalmente, sempre desconfiei das coincidências, mas ainda das coincidências políticas. Será que vão acusar algum petista dessa vez?

Segurança Pública

Uma semana para a segurança pública
Antonio Fernando de Souza
A semana passada foi de conquistas e debates acerca da segurança pública em Cachoeiro de Itapemirim. Primeiro, no dia seis, por iniciativa do vereador Marcos Mansur, a Câmara Municipal promoveu um debate de altíssimo nível sobre o assunto, com a brilhante presença, entre tantas, do Secretário Henrique Herquenhoff, que demonstrou conhecimento sobre o assunto e coragem para dizer o que pensa ainda que suas idéias não sejam as mesmas da maioria dos palpiteiros que tanto opinam sobre tão delicado tema. A lamentar apenas a baixa presença das organizações sociais. Pessoalmente saí da Câmara com a perspectiva de que finalmente podemos ter uma política de Estado para a segurança pública digna do momento e do povo capixaba.
Ficou um gostinho de quero mais. Creio que esse é o papel essencial do parlamento, discutir os problemas que afligem nossa população sem a preocupação de encontrar soluções executivas. Parabenizo publicamente ao vereador e sugiro que novos encontros sobre esse tema sejam realizados, envolvendo as universidades aqui instaladas e a população em geral. Ouso até sugeris como tema de um novo encontro “o papel da sociedade na política de segurança pública”.
No dia seguinte aconteceu a primeira reunião do Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGIM), instância criada pelo prefeito municipal onde gestores e operadores de segurança pública e defesa social de todas esferas governamentais se sentam com órgãos do governo municipal para discutir os problemas relativos à segurança do município encaminhando soluções que ultrapassam a ação policial, afinal, discutir segurança pública apenas pelo viés policial é o mesmo que transferir responsabilidades deixando o povo à mingua. Com a instalação do GGIM o governo municipal sinaliza que está preocupado com a situação de segurança de nosso povo e determinado a somar esforços e recursos para garantir esse direito fundamental ao cachoeirense.
Durante a reunião, que acontecia no mesmo instante em que uma escola no Rio de Janeiro estava sendo atacada pelo desequilibrado atirador, foi aprovada a criação da Patrulha Escolar pela Guarda Municipal de Cachoeiro de Itapemirim, para isso foi criado um GT que tem trinta dias para formalizar a proposta e implementa-la na rede municipal de ensino. Nesse momento em que o governo do estado está implantando um batalhão de patrulha escolar, é importante que o município assuma a sua parte oferecendo mais segurança e tranqüilidade a alunos, pais e profissionais da rede municipal de ensino.
O GGIM é uma proposta de abordagem multidisciplinar e transversal em segurança pública. Nele, busca-se consolidar uma metodologia de ação integrada dos órgãos de repressão e de prevenção, visando definir claramente o que cabe a cada órgão governamental na execução de políticas que garanta ao cidadão e à cidadã o direito à segurança, superando a tradicional política calcada na repressão policial sem ações de prevenção e sem definição clara de papeis institucionais.
Para fechar a semana, a prefeitura municipal promulgou e publicou a lei municipal que possibilita a criação do Centro de Atenção Psicocial para pacientes com transtornos decorrentes do uso e dependentes de álcool e substâncias psicoativas, o CAPS-AD. Mais uma ação que visa reforçar as ações de segurança ao oferecer a dependentes químicos em geral tratamento público e gratuito, com profissionais capacitados. Foi mesmo a semana da segurança pública para nossa cidade.
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Sobre a tragédia do Rio, gostaria de saber o que têm a dizer os que foram contra o estabelecimento de mecanismos mais rigorosos de controle da venda de armas de fogo sobre o lamentável episódio. É provável sintam-se ofendidos de lhes disserem que são culpados indiretos pela tragédia.

Ainda sobre reforma política

Ainda sobre reforma política
Antonio Fernando de Souza
Na semana passada escrevi aqui sobre reforma política, defendendo alguns pontos de vista e fazendo algumas afirmações e sinto-me obrigado a esclarecer algumas coisas. Primeiramente é necessário dizer que, o que se está chamando de reforma política não passa de uma reforma eleitoral. A confusão se explica, em parte, pelo fato do brasileiro comum confundir política com eleições, evidentemente são coisas diferentes, mas continuarei usando o termo, pedindo a compreensão do possível leitor destas mal traçadas.
Fato é que a reforma “política” está na pauta, finalmente. Mas quando se fala em reformar qualquer coisa, há uma tendência geral de se querer uma reforma definitiva que estabeleça regras perfeitas. E o pior é que todos (eu também) têm uma idéia de quais seriam as regras ideais. Devemos todos ter consciência de que nunca haverá regras ideais, visto que as regras são mutáveis sempre, portanto, as novas regras que resultarem dessa reforma deverão da conta da realidade temporal até se esgotarem e serem substituídas por outras em outra realidade sócio/política.
Quem está acompanhando a discussão que está se dando em Brasília já sabe que estão surgindo propostas as mais diversas, assim como das dificuldades de se chegar a consensos mínimos. Num país em que não há consenso nem na escalação de time de futebol, seria ingênuo esperar um consenso sobre regras eleitorais, o que se espera é que suas excelências do Congresso Nacional construam maiorias em torno de algumas propostas e aprovem uma legislação eleitoral que corrija os erros das regras atualmente em vigor, pois, se é verdade que não há proposta consensual, é também verdade que todos querem a tal reforma. E se todos querem a reforma é porque as regras atuais se esgotaram.
Então, há que se esperar que do debate saia uma legislação que fortaleça a democracia, tendo claro que o elemento fundador da democracia não é o indivíduo e sim a coletividade. Para isso, as regras têm que privilegiar e fortalecer os organismos coletivos do processo eleitoral, ou seja, os partidos devem prevalecer sobre candidatos e mandatários; as instituições sobre os partidos; a sociedade sobre o indivíduo.
Um exemplo: entre muitas propostas que estão em debate está a questão do voto obrigatório ou não. Os que são contra a obrigatoriedade do voto argumentam que esse instrumento é antidemocrático. Não é tão simples assim. Se a obrigatoriedade do voto fortalece a democracia ao tornar todos os cidadãos em eleitores compulsórios, ela é uma instituição democratizante e assim, democrática. Assim como todas as outras obrigações a que nos submetemos para vivermos em sociedade.
Há também propostas que objetivam reduzir o número de partidos sob a alegação de que há partidos artificialmente constituídos, dificultando a construção de maiorias sólidas e estáveis. Ora, a redução artificial de partidos pode gerar paralisias decisórias, como está acontecendo agora nos Estados Unidos, onde os republicanos liderados pelo movimento tea party, da extrema-direita estadunidense.
Enfim, o que devemos esperar dessa reforma é que se estabeleçam regras eleitorais que fortaleçam a democracia, oxigenando o nosso sistema partidário; que o eleitor tenha maior controle sobre seus representantes; que se reduza a influência do poder econômico e dos personalismos nos resultados eleitorais; e que se crie maiores mecanismos de fiscalização e controle dos gastos de campanha. É uma tarefa árdua, tanto que deveria ser feita por uma constituinte exclusiva, mas terá que ser realizada urgentemente.
O que preocupa é a baixa participação da sociedade nesse debate. Parece que os eleitores em geral e as organizações da sociedade civil ainda não atentaram para a importância dessa “reforma política”. Não nos iludamos, os principais interessados nessa questão não são os políticos e seus partidos, somos nós os cidadãos/eleitores.

Reforma Política

Hora de pensar a reforma política
Antonio Fernando de Souza

A crise de representação que afeta o sistema político brasileiro segue se aprofundando. Não se trata apenas dos escândalos de caixa dois mais uma vez nas páginas políticas dos jornais por conta da denúncia contra a deputada Roriz, lá do Distrito Federal. Trata-se principalmente do comportamento cada vez mais personalista das lideranças políticas, como a do prefeito de Vitória, que mais uma vez atropela seu partido lançando a candidatura de um candidato do PMDB.
É mais que urgente uma reforma no sistema político/partidário brasileiro. Mas uma reforma que fortaleça os partidos, dando-lhes representatividade efetiva e cobrando-lhes responsabilidades. É necessário encontrar alguma forma de responsabilizar os partidos e seus dirigentes pelo comportamento inadequado de seus filiados no exercício de mandatos conferidos pelo eleitor.
É necessário acabar com a farra das contribuições privadas para campanhas eleitorais, estabelecendo o financiamento público de campanhas eleitorais de forma que garanta condições iguais para todos e se estabeleça uma fiscalização efetiva desses gastos, acabando com as prestações de contas fictícias e punindo severamente os desvios e “erros” tão comuns.
Mas também é preciso que se estabeleçam regras claras e definitivas sobre os partidos e os processos eleitorais, retirando do TSE a prerrogativa de legislar via portarias diferentes para cada processo eleitoral, numa verdadeira usurpação de poder do Legislativo, como acontece todos os anos.
Há que se discutir e rever o instituto da reeleição, que, além de tornar desiguais as disputas, estabeleceu de fato mandatos de oito anos com um plebiscito revogatório na metade.
Já está mais do que na hora de se estabelecer mecanismos que inibam ou dificultem a criação de partidos políticos sem lastro social, sem programa e sem nenhum compromisso ideológico com qualquer coisa, as chamadas “legendas de aluguel”. O eleitor tem que dispor de um sistema em que seu voto não seja burlado ou transferido sem seu consentimento, por isso, as regras sobre as coligações partidárias precisam ser aprimoradas.
Enfim, Cabe ao Congresso Nacional assumir o seu papel e fazer uma Reforma que fortaleça os mecanismos de participação social, privilegiando e fortalecendo a democracia. Ocorre que no Congresso Nacional estão representadas várias concepções de reforma e até mesmo de democracia, portanto cabe ao povo, os verdadeiros interessados, envolver-se nesse tema fundamental para a nossa democracia, pressionando por uma reforma que fortaleça a democracia, que dela saia um sistema político/partidário melhor do que o que existiu até hoje em nosso país.
Temos que ficar atentos e mobilizados contra propostas que travestidas de democráticas visam enfraquecer a democracia, favorecendo o poder econômico, como é a tal proposta apresentada por setores do PMDB, hoje apelidada de “Distritão”. Cabe aos partidos progressistas, aos movimentos sociais e a todos os que desejam o aprimoramento de nossa democracia realizar uma grande mobilização trazendo o tema para as ruas. A disputa pelo país que queremos não pode se dar apenas nos gabinetes de suas excelências.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Sobre Formadores de Opinião e outros mitos

15/3/2011


Por Antônio Fernando de Souza


Não sei de onde surgiu o termo “formadores de opinião”, tão usado por pessoas auto-intituladas pensantes nos dias atuais. Mas também tenho meus (pré) conceitos e arrisco dizer que esse é um dos vários neologismos criados por certas “elites” que viram-se forçadas a substituir o surrado “pobre é burro”, com que se referiam às classes populares.



Mas não importa a origem. O que importa, ao menos para os objetivos desse texto, é refletir sobre o processo que faz os pretensos formadores de opinião de nossa querida Cachoeiro têm suas próprias opiniões formadas (hegemonizadas?) por meios duvidosos, reproduzindo visões superficiais e muitas vezes preconcebidas de diversos fenômenos, resguardando as honrosas e escassas exceções, é claro.



Mas me parece curioso, senão cômico, o pedantismo de seres “pensantes” repetindo chavões preconceituosos sobre hábitos e costumes de nosso povo, sobre política, economia, política externa e o que mais resolvem reproduzir de pernósticos regiamente pagos nos panfletos da direita nacional, como se fossem verdades absolutas.



Um exemplo: recentemente ouvi e vi pela TV dois cachoeirenses avaliando os primeiros dois meses do governo Dilma: diziam que não votaram nela e que Lula foi um péssimo presidente, enquanto elogiavam o corte do orçamento em 50 bilhões. Segundo eles, essa medida iria sanear as contas nacionais colocando a economia do país nos trilhos, visto que Lula a teria deixado aos frangalhos com sua gastança populista e irresponsável.



Outro exemplo: quando o prefeito municipal discordou da avaliação dos “formadores de opinião” acerca de uma pesquisa sobre o seu governo, houve uma reação furibunda e até raivosa, por que o prefeito estaria contra a maioria do povo e “só enxerga o que quer”.



Quanta contradição! O presidente Lula sai do governo muito bem avaliado pelo povo em geral e reconhecido pela comunidade internacional. Mas, para os nossos formadores de opinião ele foi um péssimo presidente. Nenhuma palavra sobre não respeitar a opinião da maioria.



Ora, o mesmo governo que cortou o orçamento da união em 50 bi, aumentou os juros em mais 0,5% nos seus dois primeiros meses governo, sobre isso, nossos geniais analistas nada falaram. Será que não sabem que o aumento de juros representa um aumento nos gastos em muito mais do que os 50 bi economizados? Será que essas pessoas tão inteligentes e bem informadas não sabem que o orçamento público ao final de cada exercício tem que ser zerado?

Penso que os tais “formadores de opinião” sabem, mas não querem dizer, que quando o governo realiza cortes orçamentários e ao mesmo tempo aumenta os juros está tirando dinheiro dos serviços públicos (saúde, educação, segurança e infra-estrutura, por exemplo) em benefício dos mais ricos, dos que especulam na banca financeira, em detrimento do povo, do crescimento do país, da geração de empregos e de mais investimentos.



Parece piada, mas não é: os analistas que discordam do prefeito em sua maioria não votaram nele, estiveram com outros candidatos até o último dia e nunca acreditaram que o atual prefeito pudesse ganhar as eleições em 2008. Agora acendem um alerta porque, parecem torcer pela sua reeleição e já o culpam se ela não ocorrer. O pior é entre sinceros eleitores de Casteglione e até mesmo entre membros do seu governo, sem falar nos filiados ao seu partido, os tais opiniões ecoam. Será esse o objetivo destes analistas?



Pode até ser, mas prefiro acreditar em outra hipótese: ao que parece, estas pessoas se acreditam mesmo “formadores de opinião”, assim, quando as pesquisas indicam que a maioria concorda com suas opiniões, eles sentem-se ofendidos pelos que discordam e assumem o risco de ser minoria; porém, quando a maioria discorda de suas opiniões, eles dizem que o povo está sendo manipulado, ou melhor, não usam mais esse termo, agora dizem que a massa está sob “controle social” (sic).

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

As coisas mudam, embora as mudanças doam.

Tudo o que é sólido se desvanece na rua.
Por Raúl Zibechi*
As revoltas da fome que sacodem o mundo árabe podem ser apenas as primeiras ondas da grande tsunami social que está se engendrando nas profundezas dos povos mais pobres do planeta. O fenomenal aumento dos alimentos (58% o milho, 62% o trigo em um ano) está se convertendo no estopim que dinamiza os estalos, mas o combustível é aportado pela brutal especulação financeira que está se focalizando, novamente, nas matarias primas. Alguns preços já superaram os picos de 2008, no entanto, o Banco Mundial e o FMI se mostrem incapazes de frear a especulação com os alimentos, com a vida.
Dois fatos chamam a atenção na revolta árabe: a velocidade com que as revoltas da fome se convertem em revoltas políticas e o temor das elites dominantes que não atinaram, durante décadas, a outra coisa que se consegue resolver problemas políticos e sócias com segurança interna e repressão. A primeira fala de uma nova politização dos pobres do Oriente Médio. A segunda, das dificuldades dos de cima em conviver com essa politização. O sistema está mostrando com sobras que pode conviver com qualquer autoridade estatal, mesmo a mais “radical” ou anti-sistema, mas não pode tolerar o povo na rua, a revolta, a rebelião permanente. Digamos que a poebelión permanente. Digamos que o povo na rua é o taco na roda da especulação e da acumulação de capital, por isso entre as primeiras “medidas” que tomaram os militares logo que Mubarak se retirou para descansar, foi exigir à população que abandonasse a rua e retornasse ao trabalho.
Se os de cima não podem conviver com a rua e as praças ocupadas, os de baixo – que temos aprendido a derrubar faraós – não aprendemos ainda como travar os fluxos, os movimentos do capital. Algo muito mais complexos que bloquear tanques ou dispersar polícias anti-motins, porque diferentemente dos aparatos estatais o capital flui desterritorializado, sendo impossível dar-lhe caça. Mais ainda: nos atravessa, modela nossos corpos e comportamentos, se mete em nossa vida cotidiana e, como assinalou Foucault, divide nossas camas e nossos sonhos. Ainda que exista algo fora do Estado e das instituições, é difícil imaginar algo fora do capital. Para combate-lo não são suficientes nem as barricadas nem as revoltas. .
Em que pese essas limitações, as revoltas da fome transformadas em revoltas anti-ditatoriais são cargas de profundidade nos equilíbrios mais importantes do sistema-mundo, que poderá atravessar ileso a desestabilização que se vive no Oriente Médio. A imprensa de esquerda israelense acertou ao assinalar que o que menos necessita a região é algum tipo de estabilidade. Nas palavras de Gideon Levy, estabilidade é que milhões de árabes, entre eles dois milhões e maio de palestinos, vivam sem direitos ou sob regimes criminosos e terríveis tiranias (Haaretz, 10 de fevereiro de 2011).
Quando milhões ganham as ruas, tudo é possível. Como normalmente acontece nos terremotos, primeiro caem as estruturas mais pesadas e pior construídas, ou seja, os regimes mais vetustos e menos legítimos. Sem dúvida, uma vez passado o tremor inicial, começam a tornarem-se visíveis as gretas, as paredes rachadas e as vigas que, sobrecarregadas, já não podem suportar as estruturas. Às grandes agitações sucedem mudanças graduais, mas de maior profundidade. Algo disso vivemos na América do Sul entre o Caracazo venezoelano de 1989 e a segunda Guerra do Gás de 2005 na Bolívia. Com os anos, as forças que sustentaram o modelo neoliberal foram forçadas a abandonar os governos para instalar-se uma nova correlação de forças na região.
Estamos ingressando num período incertezas e crescente desordem. Na América do Sul existe uma potência emergente como o Brasil que tem sido capaz de ir montando uma arquitetura alternativa à que começou a entrar em colapso. A UNASUR é um bom exemplo disso. No Oriente Médio tudo indica que as coisas serão muito mais complexas, pela enorme polarização política e social, pela forte e feroz competição inter-estatal e porque tanto os Estados Unidos quanto Israel acreditam jogar seu futuro em sustentar realidades que já não é possível seguir sustentando.
O Oriente Médio conjuga algumas das mais brutais contradições do mundo atual. Primeiro, o empenho em sustentar um unilateralismo ultrapassado. Segundo, é a região onde se encontra mais visível a principal tendência do mundo atual: a brutal concentração de poder e de riqueza. Nunca antes na história da humanidade um só país (Estados Unidos) gastou tanto em armas quanto o resto do mundo junto. E é no Oriente Médio onde esse poder armado vem exercendo toda sua potência para sustentar o sistema-mundo. Mais: um pequeníssimo Estado de apenas sete milhões de habitantes tem o dobro de armas nucleares que a China, a segunda potência mundial.
É possível que a revolta árabe abra uma greta na descomunal concentração de poder que exibe essa região desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Só o tempo dirá se está cozinhando uma tsunami tão potente que nem o Pentágono será capaz de surfar sobre suas ondas. Não devemos esquecer, no entanto, que as tsunamis não fazem distinções : arrastam direitas e esquerdas, justos e pecadores, rebeldes e conservadores. É, não obstante, o mais parecido com uma revolução: não deixa nada em seu lugar e provoca enormes sofrimentos antes que as coisas voltem a algum tipos de normalidade que pode ser melhor ou menos má. .
* Raúl Zibechi, jornalista uruguaio, é docente e pesquisador na Multiversidad Franciscana de América Latina, e assessor de vários coletivos sociais.
Traduzido do espanhol por Antonio Fernando de Souza
Fonte: ALAI, América Latina en Movimiento (15/02/11)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Mais Um Fórum a ser criado

Em defesa do Fórum Cachoeirense de Segurança Pública
Antonio Fernando Souza

Segundo os jornais, um vereador de Cachoeiro de Itapemirim propôs, ou vai propor a organização, ou criação de um Fórum de Segurança Pública em nosso município, uma boa idéia que certamente encontrará grandes dificuldades de concretizar-se.
Digo isso lembrando que recentemente um vereador local (não sei se foi o mesmo) propôs a criação de um Fórum para discutir o desenvolvimento local e regional, que aparentemente não vingou.
Iniciativas que objetivam mobilizar a sociedade, canalizando as forças sociais para discutir os diversos problemas existentes em busca de soluções devem ser comemoradas e incentivadas. Da mesma forma, considero alvissareiro saber de membros do Legislativo buscando formas de atuação que vão além dos limites culturais e legais da vereança. Mas, mantenho-me cético. Afinal, o Fórum anteriormente proposto se consolidou? Parece que não. E esse novo Fórum irá vingar? Acho pouco provável.
Explico meu ceticismo: vivemos em tempos em que as pessoas raciocinam e agem mais por imagens do que por conceito, e isso afeta todos os campos de nossas vidas, mas é no fazer político que essa característica se acentua mais, não só pelo caráter público da atividade, mas também devido aos próprios processos eleitorais, quando a imagem é (quase) tudo.
No caso em tela, parece que a imagem está se sobrepondo ao conceito. Ou seja, se está pensando num fórum imagético e não num fórum conceitual. Se isso for verdade, não teremos o Fórum de segurança pública em nossa cidade.
Desde o sucesso do Primeiro Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, fala-se em vários fóruns por aí. Acontece que um “fórum” é um espaço plural e horizontal, sem caráter deliberativo e não institucional, onde os mais diversos atores e instituições sociais reúnem-se para debater os problemas afins, buscando identificar o que cada membro participante pode fazer para contribuir na solução ou amenização destes. Ou seja, os fóruns são mais espaços teóricos do que de decisões práticas, além de serem uma experiência de democracia extrema.
Assim, a constituição de um “fórum” exige um grau de tolerância democrática e pluralidade de posicionamentos ainda pouco experimentada entre nós. Isso explica porque a maioria, se não a totalidade, das experiências de fóruns mais ou menos bem sucedidas tenham sido iniciativa dos movimentos sociais e não a partir dos poderes constituídos.
Aqui, as coisas parecem ser mais difíceis porque a política institucional contaminou as organizações sociais, transformado-as em apêndice de interesses mais ou menos estritos de pessoas e/ou grupos políticos específicos.
Definindo-me como um otimista moderado e critico radical, congratulo-me com o vereador pela iniciativa, desafiando a todos os que se interessam pelo tema Segurança Pública (profissionais da área e da imprensa, autoridades constituídas, organizações sócias, vitimas em geral e cidadãos diversos), a juntarem esforços na constituição do FOCASP – Fórum Cachoeirense de Segurança Pública.

Mais Um Fórum a ser criado

Em defesa do Fórum Cachoeirense de Segurança Pública
Antonio Fernando Souza

Segundo os jornais, um vereador de Cachoeiro de Itapemirim propôs, ou vai propor a organização, ou criação de um Fórum de Segurança Pública em nosso município, uma boa idéia que certamente encontrará grandes dificuldades de concretizar-se.
Digo isso lembrando que recentemente um vereador local (não sei se foi o mesmo) propôs a criação de um Fórum para discutir o desenvolvimento local e regional, que aparentemente não vingou.
Iniciativas que objetivam mobilizar a sociedade, canalizando as forças sociais para discutir os diversos problemas existentes em busca de soluções devem ser comemoradas e incentivadas. Da mesma forma, considero alvissareiro saber de membros do Legislativo buscando formas de atuação que vão além dos limites culturais e legais da vereança. Mas, mantenho-me cético. Afinal, o Fórum anteriormente proposto se consolidou? Parece que não. E esse novo Fórum irá vingar? Acho pouco provável.
Explico meu ceticismo: vivemos em tempos em que as pessoas raciocinam e agem mais por imagens do que por conceito, e isso afeta todos os campos de nossas vidas, mas é no fazer político que essa característica se acentua mais, não só pelo caráter público da atividade, mas também devido aos próprios processos eleitorais, quando a imagem é (quase) tudo.
No caso em tela, parece que a imagem está se sobrepondo ao conceito. Ou seja, se está pensando num fórum imagético e não num fórum conceitual. Se isso for verdade, não teremos o Fórum de segurança pública em nossa cidade.
Desde o sucesso do Primeiro Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, fala-se em vários fóruns por aí. Acontece que um “fórum” é um espaço plural e horizontal, sem caráter deliberativo e não institucional, onde os mais diversos atores e instituições sociais reúnem-se para debater os problemas afins, buscando identificar o que cada membro participante pode fazer para contribuir na solução ou amenização destes. Ou seja, os fóruns são mais espaços teóricos do que de decisões práticas, além de serem uma experiência de democracia extrema.
Assim, a constituição de um “fórum” exige um grau de tolerância democrática e pluralidade de posicionamentos ainda pouco experimentada entre nós. Isso explica porque a maioria, se não a totalidade, das experiências de fóruns mais ou menos bem sucedidas tenham sido iniciativa dos movimentos sociais e não a partir dos poderes constituídos.
Aqui, as coisas parecem ser mais difíceis porque a política institucional contaminou as organizações sociais, transformado-as em apêndice de interesses mais ou menos estritos de pessoas e/ou grupos políticos específicos.
Definindo-me como um otimista moderado e critico radical, congratulo-me com o vereador pela iniciativa, desafiando a todos os que se interessam pelo tema Segurança Pública (profissionais da área e da imprensa, autoridades constituídas, organizações sócias, vitimas em geral e cidadãos diversos), a juntarem esforços na constituição do FOCASP – Fórum Cachoeirense de Segurança Pública.