Valorizar a vida, esse é o debate.
Antonio Fernando de Souza
Há algum tempo li um texto do grande escritor Luiz Fernando Veríssimo em que ele brincava com as contradições da vida e exemplificava citando os posicionamentos da esquerda e da direita a cerca de temas como a pena de morte e o aborto. Segundo o texto, a direita que é contra a intervenção do Estado na vida das pessoas, defende a pena de morte, a mais radical intervenção estatal na vida das pessoas. Já a esquerda, para quem o coletivo deve estar acima das individualidades, costuma apelar para argumentos que levam em conta mais as liberdades individuais quando defendem a descriminalização do aborto.
Esse texto sempre me vem à mente quando as posições de esquerda e direita se expõem em temas como o desarmamento da população civil. Nesse assunto, tais contradições afloram quase que em erupções vulcânicas. Posicionam-se contra o desarmamento, pela direita, os que defendem o direito individual de usar armas e bradam aos sete cantos que “o governo tem que desarmar os bandidos e vigiar as fronteiras, e não cassar o direito individual de escolher ter ou não uma arma”.
Para estes, o fato de que cerca da metade das armas hoje em mãos de criminosos, foram um dia armas dos chamados cidadãos de bem, compradas legalmente e registradas no órgão de controle, pouco importa. Sobre as fronteiras, fingem desconhecer que pouco se contrabandeia armas que podem ser legalmente compradas no país. Há contrabando de armas sim e todos devemos exigir do Estado políticas mais efetivas de repressão a esse crime, mas as armas que estão matando nossos jovens não passaram por esse caminho, ao menos a sua maioria. Afinal, ninguém sai na rua com uma fuzil, por exemplo, para cometer assaltos. Esse tipo de arma é usado na maioria das vezes como demonstração de força das facções do crime organizado, ou em suas ações mais ousadas. As armas que estão matando nossos jovens não são desse tipo, são revólveres, armas fáceis de ser escondidas e transportadas.
Mais a mais, quando o governo faz uma campanha pela entrega voluntária de armas, não está ferindo o direito de ninguém comprar armas. Pessoalmente, acho que deveria haver maiores restrições a esse direito, ou seja, sou partidário de mais rigor e controle à venda de armas, pois acredito que o direito de ter uma arma deve ser restrito àgueles que de fato sabem e necessitam usá-la e provem estar isso. A alegação do direito de ter uma arma é falaciosa. Senão, vejamos: teoricamente todo cidadão tem o direito de dirigir um automóvel. Mas para exercer esse direito, é necessário provar junto à autoridade estatal de que, ao exerce-lo, não estará colocando em risco nem a si e nem aos outros. Ora, se para o direito de dirigir há exigências e alguns até defendem mais rigor nessas exigências, por que, para adquirir uma arma, cuja função é ferir ou matar, não deve haver controle ainda mais rígido?
Na semana passada, o Professor Roberto Garcia Simões publicou um artigo num jornal do estado, intitulado “Cemitério de Jovens”, cujo primeiro parágrafo transcrevo a seguir:
São 9.081 cruzes de Joões, Marthas, Silvas que tombaram no ES, entre 1998 e 2008, no desabrochar de suas vidas - 15 a 24 anos: homicídios (6.979) e acidentes de trânsito (2.102). Este cemitério de jovens sepulta o Estado nas primeiras posições do "Mapa da Violência 2011" (Ministério da Justiça e Instituto Sangari). Que desenvolvimento é esse? É desolador constatar a vitória das mortes sobre vidas tão novas.
Este é um fato real, estamos matando nossos jovens e, com eles o futuro de nosso estado. Desarmar a população é sim uma das ações que podem ajudar mudar essa realidade assustadora, não há espaço para falsos debates sobre liberdades individuais e outras quimeras ideológicas, pois não há e não pode haver direito mais importante do que o direito à vida e ao futuro.
terça-feira, 24 de maio de 2011
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