Aprendendo com os outros.
Antonio Fernando de Souza
Adquiri e recomendo a excelente revista, “Dossiê 05. Le monde diplomatique Brasil”, dedicada à África, nela chamou-me a atenção o texto intitulado “Um continente abandonado – Decadência dramática dos Estados africanos”, em que o sociólogo Jean-Pierre Olivier de Sardan lista algumas características comuns da política no continente africano. Resolvi pinçar alguns trechos do artigo e propor ao possível leitor destas mal traçadas uma reflexão sobre nós, visto que olhamos nossos irmãos africanos com alguma pretensão de superioridade. Vamos aos trechos:
“O pluripartidarismo não gerou – que pena – nos responsáveis que estão no poder, em primeiro lugar, nem nas oposições (...), a aceitação mínima das regras compartilhadas do jogo. A estratégia do braço de ferro é a regra. (...) Podemos dizer que existem hoje vários partidos que se comportam como um partido único. Não há código algum, mesmo tácito e reduzido ao essencial, de boa conduta política”.
“Todos os golpes parecem ser permitidos. Virar a casaca, fazer intrigas e passar a perna são atitudes corriqueiras. (...) Não é, como acreditam os crédulos idealistas, de falta de experiência política que sofre a África, mas sim dos excessos de estratégias políticas. O conflito permanente das ambições se dá à custa das idéias”.
“A imprensa é um bom indicador dessa penúria. A liberdade de imprensa não gerou, com raras exceções, uma imprensa de investigação nem de opinião e reflexão. É uma imprensa de boatos, de denuncia e difamação. (...) Tudo isso não deixa espaço para um verdadeiro debate sobre a gestão dos negócios públicos”.
O leitor pode até não concordar com isso, mas muita semelhança desse tipo de política com a nossa pratica provinciana. Se não é assim de fato, é desse modo que a grande maioria das pessoas percebem a política entre nós. E aí é que está o perigo.
Uma sociedade só se mantém quando a maioria de seus membros concorda minimamente com as regras estabelecidas e sentem confiança nas instituições o suficiente para tentarem mudar pela via institucional aquelas com as quais discordam. Sem isso corre risco a própria sociedade e nela os indivíduos mais fragilizados, pois quando não há regras claras, prevalece a lei da selva, onde “quem pode mais chora menos” e quem pode menos buscará formas e jeitinhos para adquirir mais poder.
É sob essa ótica que se deve pensar quase todos os graves problemas que vivemos, seja no âmbito local ou no nacional. Partindo do local para o nacional exemplifico: todos reclamam dos terríveis problemas que a cidade tem em relação ao trânsito. No entanto, a imensa maioria pensa soluções a partir de seu interesse. O dono do carro particular pensa o trânsito a partir de sua condição pessoal e por isso se sente no direito de estacionar em local proibido “por alguns minutinhos, afinal os outros fazem isso!”.
No âmbito mais amplo, cito a reforma política: todos concordam que as coligações proporcionais distorcem a vontade do eleitor e fortalecem o personalismo em detrimento dos partidos e das idéias. Porém, os partidos que não se sentem preparados para disputarem sozinhos as eleições proporcionais, querem a manutenção desse tipo de coligação, sob a alegação de que seu fim irá acabar “com os partidos pequenos”. Ora, há outros mecanismos que podem garantir a existência dos partidos pequenos, o que não se pode admitir é a existência de “partidos nanicos” que tanto mal fazem à nossa democracia.
Os exemplos são muitos e fazem parte de nossa sociabilidade precária, mas é mais que necessário (e urgente) que cada um de nós, individualmente e como membros de organizações coletivas passemos a pensar a coletividade como parte de nós mesmos. Necessitamos de uma nova cultura de sociabilidade, onde o conceito de cidadania se amplie e se aproxime da noção de civilidade. Sem isso, o nosso chamado tecido social continuará seu processo de deterioração, tornando cada vez mais difícil a sua reconstituição.
terça-feira, 24 de maio de 2011
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário