terça-feira, 24 de março de 2009

Viva a (in)segurança pública

A pauta geral aqui no sul do ES é segurança pública. Todos os dias os jornais impressos e televisivos, mais rádios e o escambau só falam nisso. Nunca se viu e ouviu tanto sobre este assunto.
Por que isso, se em nossa região os índices não são tão alarmantes quanto em outras cidades do mesmo porte e importância que a nossa? Pode-se dizer que vários fatores contribuem para isso, dentre eles a adoção do tema pela CNBB para a campanha da fraternidade deste ano.
Muitas autoridades, políticos, jornalistas e até mesmo populares viram na adoção deste tema uma oportunidade. Eu também vejo. Porém, meus quase quarenta e nove anos me ensinaram que onde quer que haja uma oportunidade há também uma ameaça.
E qual seria a ameaça possível neste episódio? Perguntaria um dos meus três leitores.
Bom, nestes tempos de crise e de virada reacionária da Igreja Católica, a escolha da segurança pública como tema de uma campanha da fraternidade chega a me assustar. Ainda mais se lembrarmos qual foi o tema do ano passado, em que a campanha ficou focada e o caso da menina pernambucana que foi excomungada.
Aqui entra o outro fator que gerou tanta mídia par as ações de segurança pública em nossa região, o que só me´faz ficar mais alerta.
O governo do Estado tem na política de segurança pública um dos seus pontos fracos. Nestes anos todos de mandato, nenhuma ação concreta de enfrentamento à violência e à criminalidade surtiu efeitos satisfatórios, dando espaço para críticas dos poucos que ainda fazem opozição ao projeto em curso e, o que é pior, gerando de quando em vez "mídia negativa", coisa que qualquer governo detesta.
Neste momento em que a Policía Federal desencadeia a operação naufrágio, atingindo duramente a imagem do judiciário capixaba e os movimentos sociais começam a alertar para o reorganização do crime organizado no estado, a campanha da fraternidade caiu como uma dádiva às autoridades estaduais que sairam da defensiva e assumiram todos os holofotes, fazendo parecer que há alguma coisa de concreta em termos de política de segurança pública no Espírito Santo.
Viram como todo fato bom pode se tornar ruim, ou o contrário?
Não digam que sou contra a sociedade civil discutindo o tema segurança pública. Muito pelo contrário. O que estou dizendo é que a campanha da fraternidade que poderia ser uma grande oportunidade para que a sociedade discutisse segurança pública, pelo menos aqui no ES, virou oportunidade para o governo escamotear sua inação e se apropriar do debate impondo a ele uma lógica equivicada e ultrapassada de que segurança pública é assunto de polícia. Ora, a polícia só exise e é necessária porque a sociedade está insegura.
Leia abaixo o corajoso texto da deputada federal Iriny Lopes sobre a criminalidade no ES. Por que a imprensa local não pauta este debate? por que, quando se fala em segurança pública se foca o debate sobre os criminosos pés de chinelo? ´
Há seis anos, no dia 24/03, Alexandre Martins de Castro Filho foi executado. É terrível pensar que o crime organizado que ele tanto combateu voltou a dar as cartas no Espírito Santo


Um integrante da Missão Especial Federal, encarregada de desmantelar o a máfia criminosa que dominava o Estado, em 2002, se referia ao crime organizado como o monstro do Lago Ness e completava que mesmo aparentemente morto era necessário que se mantivesse a vigilância para que fosse abatido tão logo ressurgisse das águas. "O problema é que o monstro não surge mais com aparência aterradora, mas vem travestido de alface. E quando você relaxar, vai te engolir", brincou uma ativista durante uma recente reunião para debater o tema.

A governabilidade a todo custo, com afagos, apoios (dissimulados, ou escancarados), nomeações de figuras historicamente ligadas ao crime para cargos públicos, o faz de conta das punições (vide a ausência de julgamento dos três mandantes do assassinato do juiz Alexandre Martins - Antonio Leopoldo, Coronel Ferreira e Calu - todos livres. A desenvoltura dos também libertos Gratz, Ferreira, e outros que por ventura desconhecemos) é uma "alface".

O grampo de 200 jornalistas da Rede Gazeta, que todos reagiram na época com indignação perante a imagem monstruosa de um regime de exceção, um estado policial que vigia quem pode ter informações relevantes sobre a morte do juiz, não passou de um "pé de alface" que engoliu a liberdade de expressão, a democracia.

A Operação Naufrágio é um em meio a uma extensa plantação. Mas aos que desejam um bode, a resposta é uma só: contentem-se com uma porção de alface. E olha que anos antes de sua morte de Alexandre Martins já denunciava a venda de sentença no Judiciário, a soltura irregular de traficantes, de pistoleiros que saiam para cometer crimes e retornavam com um álibi da prisão. Quantos crimes ficaram insolúveis, quantos morreram por combater o crime organizado (e não foi em virtude do calor, como tenta atribuir uma certa autoridade), quantos casos permaneceram impunes sob aparente normalidade, quem continua comandando o tráfico de drogas - tão utilizado nos argumentos policiais para justificar os mais de quatro homicídios diários no estado -, quantas ameaças, tentativas de homicídio e agressões devem estar sendo feitas aos que combateram ontem e hoje o crime organizado sem que se tenha notícia?

Quando Alexandre Martins e o juiz Carlos Eduardo Lemos fizeram a denúncia contra Antonio Leopoldo no Tribunal de Justiça foram duramente criticados por um dos desembargadores: "Em uma palavra, os magistrados também têm honra. De uns anos para cá, tenho visto a adoção, no seio deste tribunal, de procedimentos de semelhante injustiça. Ignorando a doutrina cristã, estamos fazendo aos outros o que não gostamos seja feito conosco". (trecho extraído da reportagem de Percival de Souza, de junho de 2005)

O tempo mostrou que há muito mais por baixo da calmaria do lago e mesmo que das águas surja algo parecido com alface desconfie. O monstro continua mais vivo que nunca. E com fome de vingança.

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