Sobre política, cultura e música
Antonio Fernando de Souza
No mesmo dia e momento em que li belo texto do Ilauro, falando de sua paixão pela música do grande Elomar Figueira, soube da corajosa atitude do secretário de estado de cultura da Paraíba, o cantor Chico Cesar, de não pagar cachê para o que ele chamou de “forró plastificado”. Parece que o secretário se posicionou contra o “forró plastificado” a partir de uma vaia dos paraibanos ao grande Sivuca em show patrocinado pelo governo paraibano, quando o público impediu sua apresentação, gritando: “Zezé, cadê você? Eu vim aqui só prá te ver!”. Numa referência ao goiano Zezé de Camargo, atração principal da noite.
Em nota o secretário de cultura disse que “não faz sentido que, na terra do forró, o estado pague a bandas de forró ‘sem ao menos uma sanfona’ a destruição das verdadeiras bandas de forró que existem em todo o nordeste e principalmente na Paraíba. Segundo ele, “pseudo bandas de forró, compostas por um teclado eletrônico, um gritador de palavras de ordem alienantes e duas dançarinas, até podem fazer apresentações onde quiserem, mas nunca pagas pelo estado onde há tantas boas e autênticas bandas de forró, como é o caso da Paraíba”.
Sempre admirei o artista Chico Cesar, embora não seja um grande fã de suas músicas. Mas, tenho que reconhecer que é um Secretário de Cultura corajoso. Creio que ele sabe as conseqüências de sua decisão: provavelmente será exonerado em curto espaço de tempo por pressões das rádios “defensoras” da liberdade de expressão, das grandes gravadoras e de todos os que estão por trás da velha indústria do “jabá”, não só da Paraíba, mas de todo esse Brasil onde toda manifestação cultural que não esteja sob controle da indústria do entretenimento está fadada ao gueto. Daqui de Cachoeiro de Itapemirim quero enviar minha solidariedade ao ousado secretário.
Lembro que nas festas de São Pedro de 2009, em Cachoeiro, aconteceram, no mesmo espaço e no mesmo dia, um show do excelente grupo ‘O Teatro Mágico’, seguido de uma dessas bandas ‘plastificadas’. O primeiro show foi um espetáculo inenarrável de alegria e arte circense/musical. Eu estive lá e vi como a (boa) emoção estava quase palpável. Encerrado o espetáculo de ‘O Teatro Mágico’, subiu ao palco uma dessas bandas de música plastificada e impostas pelo jabaculê geral. Resultado: antes de se iniciar a terceira música, já estavam voando cadeiras prá tudo o que é lado e a pancadaria corria tão solta que o show foi interrompido.
Sem querer bancar o psicólogo das massas, mas já defendendo minhas concepções, ouso defender que, diante do cerco das multinacionais do entretenimento, cabe aos poderes públicos oferecerem ao povo espetáculos de boa qualidade, sejam eles musicais, teatrais ou plásticos. A indústria do jabá já faz de tudo para embrutecer o povo. Nessa luta inglória, prefiro os que ensinam ao povo a partir do refrão “eu sinto que sei que ser um tanto bem maior”, aos que repetem o chavão gritado a plenos pulmões “SAI DO CHÃO!” e sua chulas derivações.
Isso me remete à minha última viagem à Bahia, quando questionando o tipo de música da moda em cada verão, ouvi de um estudante de artes da UFBA, apreciador dos reboliotios da vida, que rebateu com argumentos mais ou menos assim: “música é música. Isso é só baixaria que o povo gosta”. Pois é, Chico César está certo, não cabe aos governos financiarem artistas que acham que o povo precisa de baixarias. Isso o MERCADO já faz.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
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