segunda-feira, 18 de abril de 2011

Papelão

O papel(ão) do PSDB
Antonio Fernando de Souza
O mês de abril parece estar sendo difícil para o tucanato nacional e seu partido, o PSDB. Bastou o senador e ex-governador mineiro tentar ocupar o espaço de líder das oposições para que se desencadeasse uma série de eventos que dão uma vaga idéia de como andam as coisas nas fileiras do partido. O ex-ministro Bresser Pereira foi o primeiro. Em entrevista que pouco repercutiu, anunciou sua saída do partido que ajudou fundar, dizendo que este se deixou seduzir pelo neoliberalismo e passou a representar não a social-democracia brasileira, como se propunha, mas sim a velha e a nova direitas nacionais.
Logo depois, “vazaram” um artigo do ex-presidente FHC onde este defende, entre outras coisas, que o PSDB deve buscar dialogar com os novos empresários, a antiga classe média e os novos setores em ascensão social. Causou certo furor esse artigo e gerou algum debate.
Ora, o que o ex-presidente disse é o que os observadores mais atentos já haviam notado; constatando a guinada à direita do PSDB, que começou desde muito tempo e se concluiu na última eleição presidencial, quando o candidato tucano aliou-se à velha e retrograda ultra-direita nacional.
A diferença entre a postura de Bresser Pereira e FHC é que o ex-ministro se sente incomodado ao lado da direita brasileira, enquanto o ex-presidente além de não se incomodar com os novos aliados, assume as posições desse setor e propõe ao PSDB que se torne seu representante e porta-voz institucional, liderando-o no processo político. Na visão do ex-presidente, seu partido tem que estar pronto para dialogar com a velha e a nova direita, pensando política para além das eleições. Aqui é que mora o perigo, afinal todos sabem que a direita brasileira só gosta de democracia e de eleições enquanto ela está ganhando. Deve ser isso o que mais incomodou o ex-ministro Bresser Pereira.
O problema é que o PSDB nunca foi um partido de filiados, mas sim um partido de intelectuais e de quadros eleitorais e como tal tem imensa dificuldade de se enraizar na sociedade, por isso corre sérios riscos após três derrotas consecutivas em eleições presidências. Partidos sem forte inserção social têm dificuldades de sobrevivência fora dos espaços institucionais, e isso inclui o PSDB.
Atento, FHC deve ter percebido os movimentos da presidenta Dilma em direção às classes médias e propõe que seu partido deixe de disputar o povão, onde o bloco liderado pelo PT está consolidado, disputando as chamadas classes médias. Ou seja, o que parece uma proposta política ofensiva, não é nada mais do que um apelo aos seus correligionários para uma plataforma defensiva.
De fato, o DEM, partido do senador que comemorou o escândalo do mal chamado mensalão anunciando que vamos nos livrar dessa raça por trinta anos, está se desmanchando como carga de sal sob a chuva. O movimento do PT e de parte significativa de seus dirigentes para o centro está deixando os tucanos sem alternativas e sob a ameaça de extinção. O ex-presidente está apenas propondo aos seus correligionários que substitua o finado DEM. O problema é que as disputas internas tendem a se intensificar, pois se Bresser Pereira jogou a toalha, outros tucanos de alta e baixa plumagem irão lutar para permanecer na centro-direita.
É nesse contexto que se deve pensar a coincidente blitz em frente ao apartamento do senador mineiro que foi pego aparentemente alcoolizado e com a CNH vencida nessa semana. Relembrando: primeiro Aécio usa a tribuna do senado para, num discurso de grande repercussão, apresentar as linhas gerais de ação da oposição, credenciando-se para liderá-la; depois FHC escreve seu artigo, coincidentemente intitulado “O papel da oposição” onde sugere os caminhos para seu partido; depois o senador mineiro é flagrado em uma blitz com a CNH vencida.
Pessoalmente, sempre desconfiei das coincidências, mas ainda das coincidências políticas. Será que vão acusar algum petista dessa vez?

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